A eleição de 2018 marcou um dos momentos mais impactantes da nossa política recente: a ascensão de um discurso conservador que galvanizou milhões de eleitores e rompeu a hegemonia progressista. Hoje, com aquele protagonista central fora do jogo eleitoral por condenações judiciais, mas ainda exercendo influência, o campo da direita busca novas lideranças para manter seu espaço. Do outro lado, a esquerda tenta consolidar a retomada do poder, enquanto o centro procura afirmar uma identidade capaz de se contrapor ao cansaço da polarização.
O conservadorismo, aqui e lá fora, ainda mostra vitalidade. No Brasil, nomes como Tarcísio de Freitas e Romeu Zema são apontados como herdeiros potenciais. No mundo, Donald Trump, mesmo envolto em processos, segue mobilizando metade da América; Giorgia Meloni, na Itália, e Viktor Orbán, na Hungria, demonstram força de governos de direita com forte apelo cultural e religioso.
Minha leitura é de que, no curto prazo, o conservadorismo manterá ligeira vantagem. O medo da insegurança, a pressão inflacionária e o apelo religioso fortalecem a direita. Mas a história mostra que nada é definitivo: crescimento econômico pode devolver fôlego à esquerda; o desgaste da polarização pode abrir espaço ao centro.
E não esqueçamos dos fatores externos. O Brasil é influenciado pela disputa geopolítica entre EUA e China, pelas crises migratórias, pela guerra da informação que se espalha em fake news globais e pelos fluxos de capital que premiam ou punem políticas nacionais. Estamos inseridos num tabuleiro mundial que condiciona escolhas internas.
Historicamente, o conservadorismo predominou, do Império à República Velha e à ditadura militar. A esquerda conquistou protagonismo mais recente, especialmente nos governos petistas. O centro, discreto, garantiu estabilidade em momentos de transição. A tradição brasileira é a da oscilação, nunca a da permanência absoluta.
O que virá? Creio que o Brasil seguirá como pêndulo: ora mais próximo da direita, ora da esquerda, ora buscando o equilíbrio centrista. Nenhum desses campos está morto; todos disputam corações e mentes. O eleitor brasileiro, como a chama de uma vela em noite de apagão, continuará a oscilar, ameaçando apagar-se em meio a ventos contrários, mas resistindo a permanecer aceso.
Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor emérito da ECA-USP e consultor político.




