ENTRETENIMENTO

Opinião: Preta Gil virou um sentimento coletivo e por isso é homenageada

Por Carla Bittencourt

Opinião: Preta Gil virou um sentimento coletivo e por isso é homenageada

A força da cantora nunca esteve apenas na música, mas na forma como viveu e dividiu sua história com o público

Preta Gil começou seu longo tratamento contra o câncer em 2023 (Foto: Eduardo Paduan @dudupaduan)

Na noite desta segunda-feira (20/7), enquanto a Globo exibia o documentário sobre Preta Gil, meu marido, que não acompanha o mundo artístico e sequer tem redes sociais, fez uma pergunta que imagino que muita gente também tenha feito em silêncio:

“Qual era a relevância da Preta Gil para ganhar um documentário um ano depois de morrer?”.

A pergunta não veio carregada de ironia, preconceito ou julgamento. Veio de quem realmente queria entender e talvez justamente por isso mereça uma resposta.

Preta Gil

Veja as fotos

Preta GilFoto: Reprodução/Instagram @pretagil Preta e Francisco GilCrédito: Reprodução Instagram Preta GilDivulgação/Globo Angélica, Pretal Gil e Carolina DieckmmannCrédito: Reprodução Instagram @angelicaksy Preta Gil com a mãe, a neta e FranciscoCrédito: Reprodução Instagram Gilberto Gil e PretaCrédito: Reprodução Instagram Preta Gil e a melhor amiga, Jude PaullaCrédito: Reprodução @judepaulla Preta Gil e GominhoReprodução / Globo

Porque a importância de Preta Gil nunca coube apenas na lista de sucessos que gravou, nos amigos famosos ou nos programas de televisão de que participou.

Ela transformou a própria vida em uma plataforma de afeto.

Muito antes de a palavra “representatividade” virar pauta diária, Preta já ocupava espaços dizendo que corpos gordos podiam usar biquíni, que mulheres podiam envelhecer sem pedir desculpas, que era possível falar sobre autoestima sem esconder as inseguranças e que alegria também era um ato político.

Ela nunca vendeu a imagem da mulher perfeita. Pelo contrário. Sempre pareceu profundamente humana.

Quando descobriu o câncer, poderia ter escolhido o silêncio. Preferiu dividir medos, dores, recaídas, cirurgias, esperança e, principalmente, vontade de viver.

Sem transformar a doença em espetáculo, fez dela uma conversa pública.

Milhares de pacientes encontraram nela alguém que traduzia sentimentos que eles próprios não conseguiam colocar em palavras. Famílias passaram a discutir o assunto dentro de casa. Gente que nunca tinha olhado para um exame preventivo resolveu marcar uma consulta.

Poucos artistas conseguem gerar esse tipo de impacto.

E talvez seja por isso que, um ano depois de sua morte, o documentário “Preta Gil: Eu Não Ando Só” ainda mobilize tanta gente.

Nas redes sociais, o que mais se viu não foram comentários sobre direção, fotografia ou linguagem cinematográfica. O público falava de saudade, de inspiração e de uma mulher que parecia ter pressa de viver. Muita gente dizia nunca ter chorado tanto diante de um documentário. Outros resumiam o sentimento em poucas palavras: “Preta foi amada em vida”. Havia ainda quem destacasse que o maior legado deixado por ela era justamente esse: lembrar que viver não pode ser adiado.

No fim das contas, talvez essa seja a maior resposta para a pergunta do Rafa.

Preta Gil virou personagem de um documentário porque, antes disso, foi personagem da vida de milhões de brasileiros.

Nem todo artista consegue deixar uma obra. Alguns deixam um sentimento.

E sentimentos, às vezes, sobrevivem muito mais do que qualquer sucesso nas paradas musicais.

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Tags:Preta Gil

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Carla Bittencourt.