Desde que assumiu o remake de “Vale Tudo”, Manuela Dias decidiu que atualizaria o clássico trazendo “temas contemporâneos”. E trouxe mesmo. Maternidade solo? Check. Meritocracia? Check. Racismo? Teve. Amor líquido, crise ambiental, neuroses de autoajuda? Tudo passou por ali. Mas quase nada ficou.
A crítica que tem crescido nas redes — e não sem razão — é que a autora está tratando pauta importante como acessório de figurino: bonito de ver, fácil de citar, raso de discutir. Os diálogos mencionam os temas, mas sem mergulhar. O texto às vezes parece que pegou a militância do X, colocou na boca dos personagens e foi almoçar.
Isso empobrece não só os temas em si, como também os personagens — que viram porta-vozes de tese de TCC, e não gente de carne, osso e contradição. “Vale Tudo” original era novela popular com consciência política, não panfleto. O remake, às vezes, tropeça justamente por tentar entregar os dois em cinco minutos de cena.
E quando tudo isso vira pano de fundo para colocar pautas como a do “morango do amor”, aí o risco é virar piada mesmo. E não pela ousadia — que sempre cabe na teledramaturgia — mas porque o contraste entre a tentativa de ser sério e o excesso de açúcar deixa tudo meio caricato.
O público não rejeita pauta séria. O que ele rejeita é quando ela vira só uma modinha. Por enquanto, “Vale Tudo” segue equilibrando memes e mensagens. Mas se quiser deixar legado — e não só GIF — vai precisar mergulhar com mais coragem e menos didatismo.




