Vi a série “A Guerra do Vietnã”, de Ken Burns e Lynn Novick, faz um bom tempo, acho que pouco após seu lançamento em 2018. Entre imagens violentas e desoladoras, uma informação me alvejou. Já em 1965 o governo dos EUA sabia que era impossível vencer o conflito, mas em tempos de Guerra Fria, era importante estendê-lo. Os combates duraram dez anos mais. Dos cerca de 58 mil soldados mortos, quantos poderiam ter suas vidas salvas, fosse outro o cálculo político?
Um tipo de ação militar foi o símbolo dessa crueldade. Tropas norte-americanas e vietnamitas se enfrentaram em batalhas brutais por colinas ou vilarejos supostamente estratégicos que, uma vez conquistados pelos ianques, eram logo abandonados, sem qualquer avanço tático. Cada vitória inútil espalhava bombas e sangue pela floresta, só para fazer o arsenal girar. Enquanto isso, o governo americano mentia para a população e propagava que o triunfo era inevitável.
Tanto no Vietnã quanto no Rio, a violência se alimenta de sua própria violência, garantindo lucros para a cadeia produtiva das armas (legal e ilegal), prestígio e votos para políticos que conhecem as regras do abismo. Enquanto simulam um barulho indignado, a ordem é que nada mude.
Assim como os EUA deixaram o Vietnã sem compreender o país que destruíram, o Estado brasileiro e o governo carioca seguem subindo os morros sem querer entender as favelas que ocupam, fingindo desconhecer a lógica atual do crime e as raízes sociais e econômicas de nossa violência. Enquanto isso, bombas de trauma e luto explodem no peito das famílias dos policiais e das periferias de todo o país.




