Embora as articulações estaduais ocupem papel central nas campanhas eleitorais e a formação de palanques seja tratada como um trunfo na disputa pelo Palácio do Planalto, cientistas políticos avaliam que a influência das candidaturas aos governos estaduais sobre a eleição presidencial é menor do que costuma parecer.
Nas últimas disputas, o eleitor brasileiro tem demonstrado que diferencia a escolha para presidente da decisão sobre quem deve governar os estados.
O histórico das urnas reforça essa avaliação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, foi eleito mais de uma vez sem contar com a maioria dos governadores aliados e sem formar uma base majoritária no Congresso Nacional.
Em 2022, voltou ao Planalto mesmo após adversários vencerem em estados estratégicos, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), em São Paulo, e Romeu Zema (Novo), em Minas Gerais.
Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles
Para especialistas, esse aparente descompasso ocorre porque as disputas nacionais e estaduais seguem lógicas distintas. Em cenários de polarização, fatores como a avaliação do governo federal, a economia e a identificação ideológica pesam mais na escolha para presidente, enquanto a eleição para governador é influenciada por questões locais e pela avaliação das administrações estaduais.
Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles
Frequência de envio: Diário
Ver todasVer todas as newsletters
3 imagens1 de 3Vinícius Schmidt/Metrópoles2 de 3DANIEL FERREIRA/ METRÓPOLES @danielferreirafoto3 de 3
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, destacou a importância de mudanças constitucionais para combater o crime organizado
Paulo H. Carvalho/Agência Brasília
Para Pedro Müller, consultor da Seta Public Affairs e formado em Ciência Política e História pela Universidade da Califórnia, San Diego, “a influência da eleição de governadores é quase nula nas eleições presidenciais”.
Segundo ele, o fenômeno observado nas últimas disputas ocorre justamente no sentido inverso. “O que as últimas disputas eleitorais têm demonstrado é a forte influência da eleição nacional em cima das estaduais”, afirma.
Na avaliação de Müller, o eleitor utiliza critérios diferentes para escolher presidente e governador. “Há uma forte influência identitária na hora de se votar no presidente e pragmatismo e fisiologismo nos governadores”, diz. Com a polarização, acrescenta, o candidato ao Planalto não vence por acumular apoios estaduais, mas por alcançar um desempenho homogêneo em todo o país.
Como exemplo, o especialista cita as eleições de 2022. Apesar da vitória de Tarcísio para o governo de São Paulo, Lula recuperou parte do eleitorado da região metropolitana paulista. Minas Gerais também ilustra esse comportamento: em diferentes eleições, o estado combinou votos em candidatos de campos opostos para a Presidência e o governo estadual, como Lula e Aécio Neves (2006), Dilma Rousseff e Antonio Anastasia (2010) e Lula e Zema (2022).
O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que um palanque estadual pode fortalecer uma candidatura presidencial, mas não determina seu desempenho. “A transferência de votos não é automática”, afirma. Segundo ele, esse efeito depende da popularidade do governador, do alinhamento ideológico e do contexto nacional.
Na avaliação de Medeiros, a polarização reduz ainda mais o peso das lideranças estaduais. “O eleitor decide com base na disputa nacional, na economia e na avaliação do governo federal, e não necessariamente na recomendação do chefe do Executivo estadual”, explica. Para ele, o eleitor brasileiro distingue as duas disputas e pode optar por candidatos de campos políticos diferentes para presidente e governador.
Esse comportamento ajuda a explicar fenômenos como o “Lulécio”, em Minas Gerais, em 2006, e o “Luzema”, em 2022. Para Medeiros, uma combinação semelhante poderá se repetir em 2026. “Não seria surpresa um voto ‘Lularcísio’ em São Paulo. A avaliação do desempenho estadual não coincide necessariamente com a escolha presidencial”, afirma.
Presidencialismo de coalizão
Passada a eleição, porém, a relação entre presidente e governadores ganha outro peso. Se durante a campanha os palanques estaduais têm influência limitada sobre o resultado da disputa presidencial, no exercício do mandato os chefes dos Executivos federal e estaduais passam a depender mais da articulação política e da cooperação institucional.
Segundo Pedro Müller, essa influência deixa de ocorrer pelo apoio eleitoral e passa a se dar por meio das alianças com deputados e senadores, além da implementação de políticas públicas.
Como dificilmente um presidente consegue formar maioria no Congresso, torna-se necessário negociar cargos, ministérios e emendas para construir uma base de apoio —dinâmica conhecida como presidencialismo de coalizão. Nesse cenário, governadores ampliam sua influência ao atuar em conjunto com suas bancadas.
Além da articulação política, Müller destaca que a cooperação entre União e estados é indispensável em áreas como saúde, educação e segurança. Ao mesmo tempo, muitos governadores evitam confrontos diretos com o presidente porque dependem de recursos federais para realizar investimentos e cumprir promessas de campanha.
Na prática, afirma, a relação entre os Executivos acaba sendo marcada pelo pragmatismo. “Independentemente de o voto que os levou ao poder ser ideológico ou fisiológico, a relação entre os líderes do Executivo é sempre pragmática”, conclui Müller.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Evellyn Paola.



