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Para o TSE: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!"

Por Ricardo Noblat
Reprodução

Novinha em folha, sem nunca ter sido tocada, a bola está na marca do pênalti à espera de quem a chute. No caso, será o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não há goleiro para defendê-la. Devagar ou com força, basta empurrá-la na direção do gol e sair para celebrar o que a lei determina.

Afinal, diz a Resolução nº 23.732 do TSE, de 27 de fevereiro de 2024: “É proibido o uso, para prejudicar ou para favorecer candidatura, de conteúdo sintético em formato de áudio, vídeo ou combinação de ambos, que tenha sido gerado ou manipulado digitalmente, ainda que mediante autorização, para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, falecida ou fictícia (deep fake)”.

Jair Bolsonaro mandou a resolução às favas — e com ela também a proibição do Supremo Tribunal Federal de se manifestar sobre assuntos políticos direta ou indiretamente. Assim, abriu a convenção do Partido Liberal (PL) que lançou seu filho Flávio como candidato à Presidência da República. Valeu-se justamente de uma deep fake, exibida em um telão.

“Isso que vocês estão vendo não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”, advertiu logo de início. E continuou, no melhor estilo de mestre de cerimônias: “Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto: nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que carregamos. Nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé. O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.

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Não foi a primeira vez que Bolsonaro quebrou o silêncio ao qual está obrigado desde que foi mandado para a prisão domiciliar. Em 24 de dezembro do ano passado, Flávio postou nas redes sociais a carta onde seu pai comunica aos interessados que seu candidato a presidente seria ele.

Há duas semanas, Flávio postou outra, dessa vez dirigida “aos brasileiros”, na qual Bolsonaro afirma: “Saudoso do contato com o povo ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para todos nós. O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.

Bolsonaro e Flávio são reincidentes, portanto. Desrespeitam seguidamente as ordens da Justiça e parecem não estar nem aí para eventuais punições. “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”, escreveu na década de 1960 o jornalista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Ao ministro Nunes Marques, só resta bater o pênalti e acertar o gol; na trave, não. Perdê-lo seria impensável.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.