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Passageiros PCD têm que atravessar SP para desbloquear bilhete TOP

Por William Cardoso
William Cardoso/Metrópoles

Pessoas com deficiência (PcDs) e seus familiares estão sendo obrigado a cruzar a Grande São Paulo até Itapecerica da Serra para fazer o desbloqueio do cartão que garante a gratuidade no transporte intermunicipal, o Top Especial. Em alguns casos, os passageiros têm que se deslocar por mais de 80 km, perder o dia de trabalho e gastar até R$ 400 com carro por aplicativo.

Para cruzar a catraca, os beneficiários têm que fazer o reconhecimento facial, sistema implantado em maio. Entretanto, passageiros afirmaram à reportagem que por erros na identificação, descuido na hora de se aproximar da câmera (acompanhante se aproxima do equipamento antes do titular, por exemplo) ou mesmo sem motivo evidente, o bloqueio dos cartões tem ocorrido com frequência.

Também há quem admita o uso indevido, quando pede para alguém aproveitar a gratuidade mesmo desacompanhado do PcD, seja para buscar um remédio, um documento ou resolver alguma outra questão relacionada ao beneficiário.

Uma vez bloqueado, o cartão só é liberado novamente para uso se o titular do benefício vai até um único posto em Itapecerica da Serra, cidade na região oeste da Grande SP, distante de estações de trem e metrô. Para quem mora em Mogi das Cruzes, no outro extremo da região metropolitana, trata-se de uma viagem de mais de 100 km, por exemplo.

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A situação tem gerado transtornos. Na última quinta-feira (20/8), o Metrópoles conversou com passageiros que foram até o posto da Avenida Dona Anila, em Itapecerica. Trata-se de uma sala discreta, com uma pequena porta. Do lado de fora, chega-se a formar fila.

O pintor Horácio Alves Martins, de 51 anos, saiu do bairro Bonsucesso, em Guarulhos, para desbloquear o cartão do filho autista, Bernardo, de  6 anos. A família saiu de casa em um carro por aplicativo às 7h e chegou em Itapecerica às 11h. “Ninguém sabe o motivo pelo qual bloqueou. E é uma necessidade para ir ao médico três vezes por semana. Depende do cartão”, disse, lembrando que perdeu o dia de trabalho.

“É um absurdo vir aqui para fazer o desbloqueio de um cartão. A gente mora lá em Guarulhos, pagamos R$ 400 de Uber. Não é fácil”, afirmou a mulher de Martins, a dona de casa Edines Oliveira, de 44 anos.

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O pintor Horácio Alves Martins

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A dona de casa Edicleide de Jesus e o filho Alexandre

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A ajudante geral Dirce Rocha

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O pintor Horácio Alves Martins e a dona de casa Edines Oliveira, com o filho Bernardo

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Posto de atendimento da Autopass em Itapecerica da Serra, na Grande SP

William Cardoso/Metrópoles

A ajudante geral Dirce Rocha, 54 anos, saiu de casa, em Guarulhos, às 5h40, e levou mais de cinco horas para chegar a Itapecerica com transporte público, pago sem o benefício da gratuidade porque o Top Especial estava bloqueado. Com uma bengala, pegou ônibus intermunicipais, duas linhas metrô.

“Fiquei indignada. Tantos lugares de São Paulo que são mais próximos. Falaram que aqui era interior de São Paulo, para ver como nem conheço”, diz.

A dona de casa Edicleide de Jesus, 45 anos, tem um filho autista de 12 anos, Alexandre. No último dia 13, a mãe deixou o garoto na escola e depois utilizou o cartão para buscar medicamentos para ele, o que gerou o bloqueio. “Saí de Mairiporã por volta das 6h, sem dinheiro. Vim com a cara e a coragem”, diz. “Perguntei se tinha um lugar mais próximo, como Franco da Rocha ou no Belém, mas disseram que só aqui mesmo”, afirmou.

Protesto e exceção

A dona de casa Gisele Costa Santos, de 43 anos, teve o cartão do filho autista bloqueado em julho, sem que houvesse uma justificativa para a medida.

Gisele ligou no Centro Atendimento ao Passageiro Especial (Capes), no Jabaquara, informando o que tinha acontecido, mas disseram que ela teria que fazer o desbloqueio em Itapecerica da Serra, levando o filho Danilo, de 13 anos. A família mora em Franco da Rocha, quase 60 km distante do posto de atendimento.

Revoltada, a dona de casa acionou a Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp). Como resposta, recebeu mensagem dizendo que a operadora do cartão (Autopass) era responsável por definir os postos de atendimento, que, de fato, só havia atualmente e levaria em frente. A agência também afirmou que reforçaria a necessidade de ampliação da rede e de uma alternativa para minimizar o impacto do deslocamento.

Gisele reclamou também nas redes sociais e, insatisfeita com o que disse a Artesp, foi além. “Entrei em contato com meus conhecidos. Em dois dias, resolveram a situação, com todo procedimento pelo WhatsApp, por meio de um link”, diz.

O que Gisele gostaria é que o desbloqueio via link na internet fosse ampliado a outras mães. “Sou uma mãe ativa na cidade. É nossa obrigação ir atrás e ser porta-voz das demais”, afirma. De fato, a mãe do garoto autista tem os contatos de outras tantas pessoas em igual situação que ainda não conseguiram desbloquear seus cartões por não conseguir se deslocar até Itapecerica.

O que dizem os responsáveis

A Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo (SPI) e a Artesp dizem que participam da governança integrada da bilhetagem metropolitana, que reúne os órgãos e operadores responsáveis pelo sistema. Ambas afirmam que seguirão acompanhando o tema e as medidas de aprimoramento que estão sendo estudadas.

“A agência também está dialogando com a Autopass com o objetivo de ampliar os pontos de atendimento, os canais de atendimento aos beneficiários e questões de acessibilidade”, diz, em nota.

Segundo a SPI e a Artesp, os critérios e procedimentos operacionais relacionados à biometria, aos bloqueios e desbloqueios, os dados quantitativos e os casos individualizados são tratados pelos responsáveis pela operação do sistema e pela fiscalização, que prestarão os esclarecimentos correspondentes.

Responsável pelo cartão Top Especial, a operadora Autopass diz que a biometria facial integra os mecanismos de segurança e prevenção a fraudes, “com o objetivo de garantir a correta identificação do beneficiário e assegurar que o benefício seja utilizado exclusivamente por seu titular, conforme as regras estabelecidas e publicadas pelos órgãos competentes”.

Segundo a Autopass, desde a implantação da biometria, em maio de 2026, cerca de 1,3 milhão de transações foram avaliadas pelo sistema. Desse total, 71.530 foram identificadas como não conformes e 22.900 cartões foram bloqueados.

A Autopass afirma que, quando o sistema identifica a necessidade de uma verificação adicional, conforme as regras vigentes para utilização do benefício, o beneficiário é direcionado para a validação presencial da identidade, realizada atualmente na unidade de Itapecerica da Serra.

“A companhia trabalha para ampliar as alternativas de atendimento aos beneficiários, incluindo a expansão dos pontos de atendimento e a implementação de um novo formato de atendimento online para a validação de identidade. A solução online já está tecnicamente pronta, enquanto sua implementação e a ampliação do atendimento presencial estão sujeitas às aprovações das instâncias competentes”, diz.

A Autopass diz que mantém canais digitais para esclarecimento de dúvidas, consulta de informações e realização de serviços relacionados ao Top Especial.

Questionados, o governo estadual e a Artesp não se manifestaram.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por William Cardoso.