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Polícia vê compra da Naskar como estratégia para lavagem de capitais

Por João Paulo Nunes
Material cedido ao Metrópoles

O inquérito conduzido pelo Departamento de Investigação de Crimes Contra o Patrimônio (Depatri/Decciber) da PCMG apontou a transação como uma manobra central de fachada para blindagem e ocultação patrimonial.

De acordo com a investigação, a manobra tinha como objetivo fundamentar a origem de grandes somas de dinheiro, misturando os recursos ilícitos desviados no ataque à Zema Financeira com as operações da própria Naskar.

O fato de Douglas e pessoas próximas, como a avó dele, a namorada e o cunhado, terem criado uma teia de empresas em curto espaço de tempo levantou a suspeita dos investigadores. O conglomerado ostentava capitais sociais declarados que somavam mais de R$ 2,4 bilhões, embora a maioria não possuísse sede física real ou operação comercial compatível nos endereços registrados.

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do Metrópoles DF
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Douglas Silva de Oliveira, 26 anos

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Douglas ostenta carros de luxo nas redes sociais

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Enquanto as investigações seguem, Douglas se mudou para Dubai e passou a responder comentários e comentar publicações

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Em 9 de julho, ele postou outra viagem para o exterior, dessa vez à Espanha

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Ele comprou um veículo esportivo de luxo em Dubai, onde vive atualmente

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Douglas passou a exibir carros de luxo a colegas de faculdade

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Destinos costumam ser regiões de alto padrão

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Nos “Destaques” do Instagram, Douglas registra viagens pelo mundo

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Após ser acusada de sumir com R$ 900 millhões de 3 mil clientes, a Naskar foi comprada em maio deste ano pelo valor de R$ 1,2 bilhão e, depois, transferida para o nome da avó de Douglas, Célia de Fátima Ferreira, de 77 anos. Para a polícia, essa transferência foi a prova crucial da estratégia de lavagem de capitais e ocultação de bens: ao retirar as quotas do seu próprio nome, Douglas tentava impedir que bloqueios judiciais e penhoras atingissem os ativos da Naskar.

A PCMG acredita que, ao usar a procuração da avó, que já não responde por si devido ao quadro de Doença de Alzheimer, o empresário mantinha o controle total de fato da fintech, enquanto, no papel, a responsabilidade jurídica ficava sobre uma pessoa vulnerável e sem bens penhoráveis.

“O grupo utilizava terceiros vinculados a procurações — como a avó de Douglas — para colocar empresas e pagamentos em seus nomes, escondendo os verdadeiros beneficiários do patrimônio acumulado com o golpe”, afirma a PCMG em inquérito.

Fazendas fantasmas no Pará

Boa parte das empresas abertas por Douglas que somavam mais de R$ 2 bilhões em capital social declarado era registrada como propriedades rurais e agropecuárias, incluindo locais batizados como Fazenda Nova Visagem, Fazenda Jerusalém, Fazenda Jabuti e Fazenda Tel-Aviv. Somadas, as empresas tinham capital social total de R$ 620 milhões.

A maioria das fazendas foi aberta em sequência em um curto intervalo de tempo, entre janeiro e setembro de 2024, sendo que algumas foram registradas exatamente no mesmo dia. O Metrópoles revelou a abertura em massa em reportagem publicada em maio deste ano.

A investigação da Polícia Civil de MG indica que as empresas não existem. Em vez de produzirem grãos ou criarem gado, as “empresas rurais” funcionavam, na prática, como empresas de fachada.

“O Relatório de Inteligência nº 206, produzido com apoio da Polícia Civil do Pará, apontou resultado negativo quanto à existência de propriedades rurais supostamente vinculadas aos investigados, levantando a hipótese de utilização dos locais como fachadas para ocultação patrimonial“, descreve a PCMG em inquérito.

O fato de não ter endereço é característica comum com a Azara Capital LLC, empresa de Douglas responsável por comprar a Naskar.

Desvio de R$ 60 milhões da família de Zema

Como revelado pelo Metrópoles, Douglas é acusado de liderar esquema que desviou R$ 75 milhões da Zema Financeira, instituição que pertence ao conglomerado de empresas da família de Romeu Zema. A investigação da Polícia Civil de MG revela que a maior parte do dinheiro desviado do Grupo Zema foi parar na conta do Banco Phoenix, que tem Douglas Silva de Oliveira Azara como único sócio.

Entenda a fraude financeira

  • O golpe teria sido viabilizado pelo uso indevido de uma credencial vinculada à Stefanini Consultoria, empresa de tecnologia da informação contratada para desenvolver o aplicativo da Zema Financeira.
  • A credencial teria sido vazada ou obtida de forma ilegal por um prestador de serviço da Stefanini, de acordo com as investigações.
  • Ao conseguir burlar o acesso ao sistema da Zema Financeira, um grupo criminoso supostamente orquestrado por Douglas realizou acessos diretos às chaves de pagamento da instituição. Em seguida, quitou boletos falsos e fez transferências milionárias para empresas de fachada e contas de “laranjas”.
  • A Polícia Civil de MG cruzou dados de inteligência com informações telemáticas e constatou que a conexão IP utilizada para operar a invasão contra o sistema da Zema Financeira partiu do próprio endereço residencial de Douglas Azara, localizado em um condomínio fechado em Anápolis (GO).
  • Orquestrado por Douglas, o grupo criminoso atuou em duas frentes: enquanto parte do bando atuava como “laranja”, recebendo, pulverizando e lavando os recursos desviados no ataque à Zema Financeira, outros integrantes davam apoio tecnológico e viabilizavam a execução do ataque, assegurando a infraestrutura do grupo e ocultando os rastros das atuações.
  • No total, 19 empresas de fachada, com títulos como Serygma, TRX e Truviax, foram usadas pelo grupo investigado para operar o esquema e conseguir fazer o desvio dos R$ 75 milhões dos cofres da Zema Financeira.

Casos de família

De acordo com as investigações, Douglas usou não só a avó, mas também a namorada e o cunhado na fraude contra a Zema Financeira. A companheira de Douglas seria a advogada Jessika Lorrane Bastos de Castro, de 35 anos.

Moradora de Anápolis (GO), Jessika Lorrane tem um mandado de prisão em aberto em seu desfavor. Irmão de Jessika e cunhado de Douglas, Maycon Douglas Bastos de Castro também é citado nas investigações. Maycon está preso desde 23 de junho deste ano.

Marllon Henrique Castro Silva, apontado como diretor de TI do grupo criminoso, também foi preso em 23 de junho.

O que dizem as defesas

Douglas Silva de Oliveira Azara alega que não tem ligação com a fraude contra a Zema Financeira e que teria sido “usado”. “Não estou envolvido nisso. Utilizaram minha plataforma bancária para tal feito, mas já está sendo provado na Justiça que possuo zero envolvimento de fato”, diz.

Entre os citados no esquema, somente a defesa de Marllon Henrique Castro e Silva foi encontrada para se pronunciar. O advogado do investigado afirma que Marllon não participou dos fatos.

“Seu contato com pessoas vinculadas à empresa mencionada no procedimento limitou-se ao âmbito estritamente profissional, em razão de contratação para a prestação de serviços técnicos de tecnologia da informação”, afirma o advogado Hauany Pimenta, que defende Marllon no processo. “A referida contratação ocorreu posteriormente ao período em que teriam sido praticados os fatos apurados”, alega.

A Zema Consultoria diz que segue acompanhando a apuração do crime cibernético. “Ataques como este têm vitimado instituições financeiras no Brasil e no exterior, o que exige atuação cooperativa entre entidades públicas, privadas e o sistema de justiça. Confiantes no trabalho das autoridades, aguardaremos a conclusão das investigações”, encerra.

Metrópoles também aguarda retorno da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Goiás sobre a advogada Jessika Lorrane Bastos de Castro, apontada pelas investigações como companheira de Douglas e envolvida no esquema por ele arquitetado.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por João Paulo Nunes.