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Produções com artistas negros ganham espaço, mas desigualdade resiste

Por Luiz Claudio Ferreira - Repórter da Agência Brasil

© Paris Filmes/Divulgação

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Além do filme Feito Pipa, do diretor Allan Deberton, escolhido para representar o Brasil na busca por uma indicação ao Oscar no ano que vem, outros dois longas de narrativas negras faziam parte da lista de seis obras pré-selecionadas. 

Os outros dois filmes da lista eram Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, e Nosso Segredo, de Grace Passô, ambos diretores negros. 

“São histórias que emocionam, desafiam convenções e conquistam espaço nos maiores palcos do cinema mundial”, afirma a presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan), Tatiana Carvalho.

A par do reconhecimento, a representante da entidade destaca que o espaço para a produção de artistas não-brancos ainda está muito aquém do que deveria ser para um país de maioria negra. Tatiana Carvalho, que também é pesquisadora do tema, defende que é necessário que haja mais justiça no apoio para os realizadores. 

Carta

Nesta semana, a associação, que é apartidária, divulgou uma carta voltada para o setor e aos candidatos nas eleições deste ano na qual defende maior presença e permanência de profissionais de narrativas negras no mercado e no contexto da produção.

Segundo a carta, continua desproporcional a participação de pessoas negras no acesso aos trabalhos no setor e, sobretudo, no acesso às maiores fatias do fomento público. Na TV aberta, são atualmente 65% de pessoas brancas e 32,6% de pessoas pretas e pardas com registros de emprego. 

Na produção cinematográfica, são 69,6% de pessoas brancas e 29,3% de negras, sendo que as mulheres ganham menos. Um dos dados trazidos é que 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. 

Salário menor

A associação também argumenta que profissionais negros estão concentrados nas funções técnicas e mais sujeitos à menor remuneração, à informalidade e à menor proteção trabalhista. Por isso, a associação defende mecanismos de diminuição da desigualdade racial e de gênero nas equipes para a composição de equipes.

“A carta propõe alterações e melhorias no que já existe de política pública. Cinema negro é cinema brasileiro. Defendemos políticas afirmativas do setor e uma perspectiva menos excludente”, argumenta. 

Ela diz que houve avanços com a implementação da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, ambas de financiamento para a arte brasileira. Levantamento da entidade aponta que 58% dos festivais com foco em obras dirigidas por profissionais negras e realizadores negros tiveram participação direta desses incentivos no ano passado.

O documento, que defende a realização de festivais de filmes com esse recorte racial, aponta que 83% das obras audiovisuais dirigidas por pessoas negras no Brasil foram produzidas após 2010.

Ela avalia que a organização da cultura no país melhorou com a reativação do Conselho Superior de Cinema e com o Comitê Gestor do Fundo Setorial Audiovisual Ampliação de público. Além disso, a maior exposição dos filmes brasileiros em eventos internacionais, com prêmios como o Oscar, tem ajudado a gerar formação de público. 

Outra iniciativa que a pesquisadora valoriza é a criação do Tela Brasil, plataforma gratuita de filmes brasileiros. 

Tatiana Carvalho explica que o Brasil não tem legislação de proteção do cinema local, como os Estados Unidos. “Quando a gente fala em defender 20% de cota de tela nos cinemas, há uma gritaria falando que é censura de cinema internacional”.

Para ela, a legislação é “muito tímida” em relação à proteção do cinema brasileiro para o público. Ela acredita que Senado e Câmara precisam elaborar leis mais fortes para proteger o audiovisual. “São 200 filmes por ano e a população brasileira não tem acesso a isso”.

Brancos na direção

Dos filmes com mais de R$ 5 milhões de verba pública, mais de 90% deles são dirigidos por pessoas brancas, lamenta a presidente da associação. “Isso indica o que majoritariamente a população brasileira está assistindo”. 

A carta da associação defende a ampliação das ações afirmativas. “A gente desenvolveu um conceito que chama empresa vocacionada para reparação histórica, que são as que têm metade ou mais do quadro societário de pessoas negras”.

Atualmente, a cota de produção é de 25% de verbas com ação afirmativa no mínimo (sendo 15% para negros, 5% para indígenas e 5% para pessoas com deficiência).

“A gente começou a receber cotidianamente reclamações de má aplicação da Lei Paulo Gustavo”, diz Tatiana Carvalho. 

Ela explica que houve relatos de fraudes. Pessoas negras assinavam cartas de anuência e, quando o dinheiro chegava na produtora, elas eram descartadas do processo. Outra forma é de pessoas se declararam negros sem serem. 

A entidade defende bancas de heteroidentificação, como ocorrem nas cotas estudantis universitárias. Ao mesmo tempo, Tatiana Carvalho defende que é fundamental que a legislação estimule mais produções cinematográficas negras em sala de aula. 

“Isso é o que há de mais importante. Vai ao encontro de outra legislação que determina o ensino de cultura africana brasileira e história, além de cultura indígena no contexto da educação básica”.

Exibir filmes em sala de aula pode ser importante para as ações de contraturno na escola integral e para a integração das escolas com as comunidades nos finais de semana. Formar uma nova geração de público de produções audiovisuais e que conheçam mais do próprio país equivale, segundo avalia a pesquisadora, a um prêmio de valor imensurável.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil.