O produtor de filme sobre Bolsonaro nega dados financeiros à PF e afirma que documentos da empresa só poderão ser entregues às autoridades brasileiras mediante autorização da Justiça dos Estados Unidos.
A posição foi apresentada por Michael Davis, um dos responsáveis pela produção de Dark Horse, longa-metragem que contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (11), após documentos relacionados à investigação sobre o financiamento do filme se tornarem públicos.
Produtor diz que empresa precisa seguir legislação dos EUA
De acordo com informações divulgadas inicialmente pelo Metrópoles, Michael Davis, produtor da Go Up Entertainment LLC, enviou um e-mail à produtora Karina Ferreira da Gama em 2 de setembro.
Na mensagem, Davis afirmou que a empresa não poderia fornecer livremente registros financeiros, fiscais, bancários, contratuais e societários às autoridades brasileiras.
Segundo a posição apresentada pelo produtor, a disponibilização dos documentos dependeria do cumprimento das regras legais dos Estados Unidos e de uma autorização judicial naquele país.
A manifestação ocorreu após a Polícia Federal solicitar voluntariamente informações relacionadas aos gastos e à estrutura financeira utilizada para a produção do longa.
PF investiga origem do dinheiro usado no filme
A Polícia Federal apura a origem e o caminho dos recursos destinados à produção de Dark Horse.
Entre as possibilidades analisadas pelos investigadores estão eventuais relações com crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, além de outras possíveis irregularidades.
A investigação busca identificar a origem dos valores, as empresas envolvidas nas movimentações e o destino final dos recursos utilizados no projeto cinematográfico.
Até o momento, a apuração trata essas possibilidades como hipóteses investigativas, que ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades.
Transferências somaram US$ 12,33 milhões em 2025
Segundo os documentos analisados pela investigação, parte dos recursos teria saído da Entre Investimentos, empresa offshore registrada nas Bahamas.
Os valores teriam sido enviados ao Havengate Development Fund LP, fundo de investimentos localizado nos Estados Unidos.
Somente em 2025, as transferências identificadas pelos investigadores chegaram a US$ 12,33 milhões, valor estimado em aproximadamente R$ 63 milhões.
Os repasses teriam ocorrido nos meses de fevereiro, março, abril, maio e setembro daquele ano.
A identificação dessas movimentações financeiras está entre os elementos que levaram a Polícia Federal a aprofundar a análise sobre o financiamento do filme.
Contrato previa investimento de até US$ 24 milhões
Outro documento encontrado no celular do empresário Daniel Vorcaro chamou a atenção dos investigadores.
O material previa um investimento total de US$ 24 milhões na produção de Dark Horse, valor que correspondia a aproximadamente R$ 134 milhões na época.
O acordo estabelecia o pagamento em 14 parcelas.
As duas primeiras seriam de US$ 2 milhões cada, enquanto as outras 12 teriam valor aproximado de US$ 1,66 milhão.
Segundo a investigação, os valores previstos no acordo apresentam semelhança com as transferências identificadas entre a empresa registrada nas Bahamas e o fundo localizado nos Estados Unidos.
Investigação também analisa previsão de lucro
Além dos valores destinados à produção, os investigadores analisam as estimativas de retorno financeiro previstas no contrato.
O documento apresentava três projeções de lucro para o filme.
No cenário considerado pessimista, a previsão era de US$ 45 milhões. Na estimativa conservadora, o retorno chegaria a US$ 70 milhões.
Já no cenário otimista, a projeção indicava um retorno de US$ 100 milhões.
As cifras chamaram a atenção dos investigadores porque, convertidas em valores nominais, representam montantes expressivos para uma produção cinematográfica brasileira.
Valores projetados superam bilheteria de filme brasileiro
As projeções financeiras previstas no contrato também foram comparadas com a arrecadação de grandes produções nacionais.
Segundo os dados apresentados na investigação, o cenário otimista de US$ 100 milhões ultrapassaria, em valores nominais, a bilheteria de Minha Mãe é uma Peça 3, lançado em 2019 e apontado como o filme brasileiro de maior arrecadação até então, com cerca de R$ 120 milhões.
A comparação ajuda a dimensionar o tamanho dos valores previstos no acordo relacionado a Dark Horse.
Empresas ligadas ao fundo também entram na apuração
A investigação da Polícia Federal não se limita às transferências financeiras.
Os investigadores também analisam as conexões do Havengate Development Fund LP, fundo que aparece nos documentos relacionados aos recursos destinados ao filme.
Entre os nomes associados ao fundo estão Altierres Santana, que atua como corretor de imóveis nos Estados Unidos, e o advogado Paulo Sergio Camin Calixto, responsável pela defesa de Eduardo Bolsonaro.
As relações empresariais e financeiras são analisadas para tentar esclarecer a origem dos recursos e o caminho percorrido pelo dinheiro.
Recusa aumenta pressão sobre esclarecimento dos recursos
A decisão de Michael Davis de não fornecer voluntariamente os documentos solicitados pela Polícia Federal acrescenta um novo elemento à investigação.
Sem a documentação financeira, bancária, fiscal e contratual solicitada, os investigadores podem depender de outros mecanismos legais de cooperação para obter informações mantidas nos Estados Unidos.
A posição do produtor, no entanto, não significa por si só que tenha sido constatada qualquer irregularidade por parte dele ou da empresa.
A apuração continua justamente para esclarecer a origem, a movimentação e a finalidade dos recursos utilizados na produção.
Caso envolve investigação sobre financiamento de Dark Horse
O filme Dark Horse tornou-se alvo de atenção das autoridades em razão dos valores e das movimentações financeiras identificadas nos documentos analisados.
A investigação procura entender como os recursos foram transferidos entre diferentes empresas e estruturas financeiras internacionais e qual foi a relação dessas operações com a produção do longa.
Com a recusa em entregar os documentos sem autorização judicial norte-americana, a obtenção de informações mantidas nos Estados Unidos passa a depender dos instrumentos legais aplicáveis à cooperação entre os dois países.
O caso segue sob investigação, e eventuais conclusões sobre crimes ou irregularidades dependerão da análise completa das autoridades responsáveis pela apuração.




