
Duas décadas de eleições presidenciais mostram uma mudança seguida de uma maior estabilidade na distribuição dos votos recebidos pelos candidatos do PT nos mais de 5,5 mil municípios do país.
A mudança mais nítida no padrão de votação do PT aconteceu em 2006, quando Lula obteve 46,6 milhões no 1º turno, ficando com 48,6% dos votos. Ao contrário de 2002, quando os percentuais de votação petista foram mais uniformemente distribuídos pelo país, 2006 mostrou um mapa de votação mais concentrado em municípios do Norte e Nordeste, além de parte de cidades do Sudeste.
Em 2002, o maior percentual de votos para Lula foi registrado em Lindóia do Sul, em Santa Catarina, com 79,7%. Já a sua pior votação foi em Pires Ferreira, no Ceará, onde obteve apenas 5,7%.
Quatro anos depois, a maior votação do petista foi em Manaquiri, no Amazonas, com 93%. Em 2006, Lula apresentou votações mais baixa no Sul e Centro-Oeste. Na cidade de São Paulo, o desempenho também caiu: em 2002, Lula tinha recebido 42% dos votos, mas, em 2006, chegou a 35,7%. Em Porto Alegre, o petista recebeu 46% dos votos em 2002, mas recuou para 29,7% em 2006.
Em 2010 e 2014, padrão se manteve
Em 2010, já com Dilma Rousseff como candidata do partido, a distribuição voltou a ficar próximo de 2006, mas com mais municípios com baixa votação no Sudeste, sobretudo no interior de São Paulo. Dilma teve a sua melhor votação em Calumbi (94,8%), em Pernambuco. O pior desempenho da petista foi em Rio Branco, no Acre (15,8%). Em São Paulo, ele obteve 38,1% dos votos, levemente acima do registrado por Lula, em 2006.
O mapa de 2014 apresenta cores mais intensas de votação proporcional para Dilma nas regiões Norte e Nordeste. Nos municípios do extremo Sul e no norte de Minas Gerais, a petista voltou a ter boa votação. Seu melhor desempenho foi em Belágua, no Maranhão, com 92%. A pior derrota da petista naquele ano foi em Saltinho, em São Paulo, com apenas 10,2% dos votos.
Lula melhora desempenho de 2018
Com Fernando Haddad como o candidato do PT, o primeiro turno de 2018 mostrou que a tarefa do petista não seria fácil. A distribuição dos votos foi menos intensa nas cidades do Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Como nas eleições passadas, o candidato do PT voltou a ter votação expressiva nas cidades do Norte e Nordeste, mas com perdas no Ceará, estado do então candidato Ciro Gomes.
O primeiro turno de 2022 mostra que Lula conseguiu recuperar municípios que votavam com o PT em outras eleições. O mapa da distribuição dos percentuais de votação indica que o petista repetiu o desempenho nas cidades Norte e Nordeste. No Sul, Centro-Oeste e Sudeste, o mapa registra votações mais intensas quando comparadas a 2018.
Mesmo na região Centro-Oeste, Lula conseguiu melhorar o desempenho do partido. A melhor votação proporcional de Lula foi em Guaribas, no Piauí, onde recebeu 92% dos votos neste primeiro turno. Em Nova Pádua, no Rio Grande do Sul, o petista teve o seu pior desempenho: 10,3%.
Em Cuiabá, no Mato Grosso, um estado voltado para o agronegócio, Lula obteve 36% dos votos, muito abaixo dos 49% registrados em 2002, mas superior aos 21,1% conquistados por Haddad em 2018. Em Campo Grande, outra importante cidade do Centro-Oeste, Lula também avançou. Haddad havia recebido apenas 15,6%. Desta vez, o ex-presidente teve 34,5%, percentual mais próximo de 2002, quando foi o escolhido por 39,2% dos eleitores e Campo Grande.
O mapa com a comparação da votação de Lula e Haddad no primeiro turno revela que o ex-presidente teve votação superior ao colega de legenda em quase todos os municípios do país, com destaque para o estado do Ceará, o extremo Sul do país e o Sudeste. Em apenas 133 municípios, Haddad teve desempenho melhor que Lula.
Embora seja uma distribuição de votos ainda distante de 2002, o petista ensaia uma retomada de municípios que abandonaram o partido após o seu primeiro mandato ou que vinham apresentando maior resistência nas últimas eleições, como em cidades do Sudeste.
Na capital paulista, por exemplo, Lula ficou com 47,54% dos votos contra 19,7% de Haddad em 2018. No Rio de Janeiro, Lula venceu com 43,47% dos votos contra 12% obtidos por Haddad há quatro anos. Em Porto Alegre, Lula obteve 49,8% dos votos, quase 30 pontos percentuais acima do desempenho de Haddad em 2018.
A maior diferença de Lula sobre a votação de Haddad ocorreu no Sudeste: 23 pontos a mais, seguido dos municípios do Sul: 17 pontos percentuais.
Na avaliação do cientista político e professor da PUC-MG Malco Camargos, a força do partido chama atenção em razão das grandes diferenças regionais do país.
“Em um país tão diverso e desigual, impressiona a constância do PT ao longo do tempo. Os mapas mostram que o PT, com pouquíssimas variações, tem um certo padrão. As variações se dão principalmente em parte das regiões Norte e Centro-Oeste, onde o partido começa forte e vai perdendo força com o passar do tempo, provavelmente com o avanço do agronegócio, a destruição do meio ambiente e a mudança da cultura econômica da região.”
Camargos destaca a concentração de votos do PT na Região Nordeste e seu efeito no saldo geral das votações do PT.
“O Nordeste continua sendo o bastião de força do partido, que faz com que toda a diferença que os seus opositores conseguem no Sul seja compensada nos estados nordestinos.”



