ENTRETENIMENTO

Quando ser “muito magra” volta a ser tendência: o alerta sobre a nova era da hipermagreza

Por Adriane Dias

Quando ser “muito magra” volta a ser tendência: o alerta sobre a nova era da hipermagreza

Redes sociais, padrões estéticos e medicamentos para perda de peso reacendem o debate sobre os riscos físicos e emocionais da busca pela magreza extrema

Coluna Adriane Dias (Foto: Imagem gerada por inteligência artificial/OpenAI)

A valorização de corpos extremamente magros volta a ganhar espaço nas redes sociais e no universo das celebridades, reacendendo discussões sobre pressão estética, uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento e riscos nutricionais, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

A moda da magreza extrema não é novidade:

Quem acompanha o universo da moda e do entretenimento sabe que o corpo feminino idealizado muda ao longo das décadas. Nos anos 1950, curvas como as de Marilyn Monroe eram símbolo de beleza. Já nos anos 1990 e início dos anos 2000, a estética conhecida como “heroin chic” dominou campanhas publicitárias, passarelas e revistas.

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O visual era marcado por:

  • Extrema magreza e ossos aparentes;
  • Aparência fragilizada e rosto afundado;
  • Aspecto de cansaço contínuo e palidez;

Modelos como Kate Moss se tornaram ícones dessa era, e a influência ultrapassou as passarelas, atingindo milhões de adolescentes que cresceram acreditando que “quanto mais magra, melhor”.

Duas décadas depois, observamos um movimento preocupante: a revalorização da magreza extrema, agora impulsionada por filtros, algoritmos e medicamentos para rápida perda de peso.

O que mudou? A pressão agora cabe na palma da mão:

Se antes as referências vinham das revistas mensais, hoje elas aparecem 24 horas por dia no TikTok, Instagram e YouTube. Vídeos com rotinas alimentares restritivas, desafios de emagrecimento e comparações corporais acumulam centenas de milhões de visualizações.

A geração mais nova é particularmente vulnerável porque:

  • Passa mais tempo exposta a imagens editadas e ajustadas por inteligência artificial;
  • Associa magreza a sucesso, popularidade e autocontrole;
  • Recebe reforço constante do algoritmo para conteúdos de comparação corporal;
  • Encontra-se em fase crítica de desenvolvimento físico e emocional;

O resultado é o aumento de comportamentos de risco, como dietas extremamente restritivas, jejum prolongado sem acompanhamento e uso de medicamentos sem indicação médica.

Análogos de GLP-1: quando o remédio vira ferramenta estética:

Os medicamentos análogos do receptor de GLP-1 (como semaglutida e tirzepatida) revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Em pacientes com indicação clínica precisa, trazem benefícios fundamentais para a saúde metabólica, controle glicêmico e redução de riscos cardiovasculares.

O problema começa quando pessoas com peso adequado utilizam esses medicamentos exclusivamente para atingir um padrão estético de magreza severa.

Segundo alertas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o uso sem indicação médica de análogos de GLP-1 para fins estéticos pode fazer com que até 40% do peso perdido seja de massa muscular, abrindo portas para a sarcopenia precoce (perda de massa muscular) e a desnutrição metabólica.

Além da severa perda de músculos, o uso inadequado e sem supervisão médica pode levar a:

  • Deficiência grave de micronutrientes (vitaminas e minerais);
  • Queda acentuada de cabelo e fragilidade cutânea;
  • Fadiga intensa e perda de força;
  • Alterações gastrointestinais persistentes;
  • Recuperação rápida do peso (efeito sanfona) após a suspensão da droga;
  • Piora significativa da relação psicológica com a alimentação;

Mais do que o número na balança, o grande risco reside na desnutrição oculta: a pessoa perde peso, mas priva o organismo de nutrientes essenciais, comprometendo órgãos e tecidos nobres.

Celebridades e o impacto das transformações corporais:

Nos últimos anos, transformações corporais muito rápidas de figuras públicas voltaram a gerar debate intenso. Nomes internacionais como Kim Kardashian, Ariana Grande e Christina Aguilera frequentemente se tornam alvo de comentários sobre emagrecimento acentuado. No Brasil, discussões semelhantes surgem em torno de influenciadoras, atrizes e ex-participantes de reality shows.

É fundamental destacar que não é possível diagnosticar ou afirmar a causa do emagrecimento de qualquer indivíduo sem informações médicas oficiais. No entanto, o ponto central é o impacto social: quando corpos extremamente magros recebem superexposição e elogios públicos, passam a funcionar como a nova norma estética para milhões de seguidores.

A diferença entre emagrecer e desnutrir:

A cultura da dieta costuma associar qualquer perda de peso à melhora da saúde, mas os dois conceitos são clinicamente opostos.

Emagrecimento Saudável:

  • Preserva a massa muscular;
  • Mantém a energia e a vitalidade;
  • Preserva exames laboratoriais adequados;
  • Mantém alimentação variada e equilibrada;
  • Ocorre com orientação e ritmo adequado;

Desnutrição e Magreza Severa:

  • Provoca perda importante de tecido muscular;
  • Causa fadiga crônica e indisposição;
  • Gera deficiências vitamínicas e alterações metabólicas;
  • Baseia-se em extrema restrição alimentar;
  • Geralmente ocorre de forma rápida e sem supervisão;

Os sinais clínicos e comportamentais de alerta:

Do ponto de vista nutricional e médico, a desnutrição nem sempre se manifesta apenas em quem está visivelmente debilitado.

Sinais Físicos e Estruturais:

  • Perda de gordura facial profunda: Redução drástica da bola de Bichat e atrofia da musculatura temporal (têmporas cavadas e aspecto envelhecido);
  • Acentuação óssea e muscular: Clavículas e costelas excessivamente proeminentes, aliadas à perda de volume glúteo e nos braços/pernas;
  • Manifestações dermatológicas e capilares: Pele seca, sem viço, queda severa de cabelo e unhas quebradiças;
  • Sinais sistêmicos: Tonturas, queda de pressão arterial, sensação constante de frio e lentidão na cicatrização;
  • Alterações hormonais: Irregularidade ou ausência completa da menstruação (amenorreia em mulheres), indicando baixa disponibilidade energética;

Sinais Alimentares e Comportamentais:

  • Medo obsessivo de ganhar peso e contagem rígida de calorias;
  • Exclusão injustificada de grupos alimentares inteiros;
  • Sentimento recorrente de culpa ou ansiedade após comer;
  • Recusa sistemática de refeições em momentos sociais;
  • Satisfação exacerbada ao notar ossos e estruturas angulares cada vez mais aparentes;

O efeito silencioso sobre os adolescentes:

Adolescentes expostos continuamente à estética da hipermagreza apresentam risco elevado para o desenvolvimento de quadros psiquiátricos e alimentares, tais como:

  • Anorexia e bulimia nervosa;
  • Transtorno Dismórfico Corporal (imagem corporal distorcida);
  • Compulsão alimentar seguida de métodos purgativos;
  • Quadros de ansiedade generalizada e depressão;

O dado mais crítico é que a maioria desses jovens possui peso perfeitamente adequado para a sua faixa etária, mas desenvolve o sofrimento psíquico por acreditar que um corpo saudável não é suficiente diante dos padrões das redes.

O que os profissionais de saúde defendem:

A comunidade médica e nutricional reforça:

1. Prescrição ética: Medicamentos para obesidade e controle metabólico têm indicações precisas e jamais devem ser utilizados como atalhos estéticos de curto prazo;

2. Saúde além do IMC: O peso isolado na balança não define saúde. Composição corporal (massa gorda x massa magra), força, qualidade do sono, saúde mental e marcadores laboratoriais são os verdadeiros indicadores de bem-estar;

3. Proteção aos jovens: Crianças e adolescentes necessitam de aporte calórico e nutricional adequado para o desenvolvimento ósseo, neurológico e hormonal pleno;

A volta da hipermagreza como tendência reacende um alerta urgente: nem toda transformação estética admirada nas redes é sinônimo de saúde. O desafio coletivo é resgatar uma visão de corpo e beleza que não exija, como preço, o sacrifício da integridade física e mental.

Referências Bibliográficas:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Washington, DC: American Psychiatric Association, 2022.

CONSELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS (CFN). Guia de Orientação para Atendimento Nutricional nos Transtornos Alimentares. Brasília, DF: CFN, 2022.

ROYAL SOCIETY FOR PUBLIC HEALTH (RSPH). #StatusOfMind: Social media and young people’s mental health and wellbeing. London: RSPH, 2017. Disponível em: rsph.org.uk. Acesso em: 11 ago. 2026.

WILDING, John P. H. et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. The New England Journal of Medicine, Waltham, v. 384, n. 11, p. 989-1002, 18 mar. 2021.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Adolescent mental health and digital environments: technical report. Geneva: World Health Organization, 2023.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Adriane Dias.