As delegacias da Receita Federal (RF) focadas no combate ao crime organizado, anunciadas pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad em setembro do ano passado ainda não saíram do papel.
De acordo com interlocutores, a medida foi encaminhada para apreciação do Congresso Nacional e prevê alteração na Lei Orçamentária de 2026 para autorizar novas despesas de pessoal, incluindo a criação e provimento de cargos para a RF e outros órgãos.
Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles
Segundo informações, serão 2 delegacias de combate a fraude e 10 delegacias de Combate ao Contrabando e Descaminho divididas em diferentes estados pelo país.
Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles
Frequência de envio: Diário
Ver todasVer todas as newsletters
Criação das novas delegacias
A necessidade de delegacias de combate ao crime organizado surgiu à luz da Operação Carbono Oculto, que completa 1 ano na próxima semana e revelou uma série de esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo o setor de combustível e o mercado financeiro, sendo a primeira vez que uma operação chegou ao centro financeiro do país, a Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Além dos esquemas de lavagem de dinheiro, a Operação, que depois se desdobrou em diversas outras, descobriu diversos crimes financeiros cometidos pela gestora de fundos de investimento Reag, ligada ao Banco Master.
À época, Haddad havia informado que o pedido para a criação seria encaminhado ao Ministério da Gestão e Inovação (MGI) e as delegacias deveriam ser instaladas “nos próximos dias”.
A ideia é que as delegacias sejam estruturadas de forma independente, atuando institucionalmente.
“Ao institucionalizar, você impede retrocessos, quando se cria um órgão de estado para tal finalidade, fica mais difícil continuar com a prática [do crime organizado]”, disse ele em entrevista coletiva no Ministério da Fazenda, em Brasília.
Relembre a Operação Carbono Oculto
- Uma megaoperação foi deflagrada contra um esquema criminoso no setor de combustíveis, que tem núcleos comandados por organizações criminosas e operadores da Faria Lima, principal centro financeiro e empresarial do Brasil;
- Foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 350 alvos (pessoas físicas e jurídicas) em oito estados: São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Rio de Janeiro e Santa Catarina;
- Para lavar dinheiro, o grupo teria criado uma estrutura empresarial, infiltrada na cadeia produtiva de combustíveis e no mercado financeiro, por meio de fintechs e 40 fundos de investimento com patrimônio de R$ 30 bilhões;
- Segundo a RF, uma rede de 1.200 postos movimentou mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, mas pagou apenas R$ 90 milhões (0,17%) em impostos;
- Além dos postos, a operação também mirou a Reag Investimentos, ligada ao Banco Master, cujo dono, Daniel Vorcaro, está preso acusado de crimes contra o sistema financeiro.
Núcleo
Atualmente já existe um núcleo de combate a fraudes, que será reorganizado em delegacias para aprofundar o combate ao crime organizado.
O núcleo conta com uma equipe especializada em fraudes estruturadas e foi criado para impedir a utilização de agentes que fazem parte do mercado financeiro em práticas de lavagem de dinheiro.
No relatório anual de fiscalização, o órgão afirma que, em 2025, ampliou ações contra estruturas desse tipo, inclusive em investigações relacionadas aos setores de combustíveis e às conexões com o crime organizado.
A proposta das novas delegacias, porém, é ampliar e institucionalizar essa estrutura. Em vez de concentrar a atuação em núcleos especializados e operações pontuais, a Receita pretende criar unidades com atribuição específica para enfrentar organizações criminosas e estruturas de fraude de maior complexidade.
A intenção é concentrar servidores e conhecimento técnico para acompanhar estruturas financeiras complexas e atuar de forma integrada com outros órgãos de investigação e controle.
Trunfo eleitoral
A medida também tende a ganhar peso no debate eleitoral de 2026. A segurança pública e o combate ao crime organizado aparecem entre os principais temas da disputa, o que amplia o potencial político da proposta.
Ao incluir no projeto de Orçamento de 2027 a criação das novas delegacias, o governo sinaliza uma resposta direta a essa demanda.
A iniciativa pode ser usada como vitrine para dialogar com eleitores mais sensíveis à pauta da segurança, em um cenário de pressão por ações concretas na área.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Gabriela Pereira.




