Geral

Quem perde com saída do BTS do Grammy: o grupo coreano ou a premiação?

Por Yasmin Rajab
Reprodução/Instagram

O BTS gerou repercussão nas últimas semanas ao anunciar que não irá se inscrever no Grammy Awards 2027. Segundo os integrantes do grupo, a decisão é uma forma de protesto contra a criação da categoria de Melhor Performance de Música Pop Asiática.

A decisão levantou o debate sobre quem seria mais prejudicado pelo boicote, o BTS ou o próprio Grammy. Para Dani Ribas, coordenadora da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), a principal questão não é determinar quem perde mais, mas entender o que o gesto revela sobre as relações de poder na indústria musical.

BTS desiste de participar do Grammy

  • O BTS revelou que não participará do Grammy por causa da criação da categoria de Melhor Performance de Música Pop Asiática.
  • Em nota, o grupo criticou a novidade e defendeu que a música não deve ser segmentada por idioma ou origem.
  • Na avaliação dos integrantes, a nova categoria pode acabar isolando artistas asiáticos das principais disputas da premiação, em vez de promover uma inclusão efetiva.

A especialista explica que, nos últimos anos, a música produzida fora do eixo anglófono — formado por países onde o inglês é o idioma dominante — ganhou cada vez mais espaço e relevância no cenário mundial. Esse movimento não se restringe ao K-pop, mas também se manifesta em gêneros como reggaeton, trap latino, funk brasileiro e afrobeats.

5 imagens1 de 5

O BTS se apresentou na final da Copa do Mundo de 2026

Reprodução2 de 5

O BTS se apresentou na final da Copa do Mundo de 2026

Reprodução3 de 5

O grupo BTS

Songzio/Divulgação 4 de 5

O show de retorno do BTS ocorreu na Praça Gwanghwamun, em frente ao histórico palácio Gyeongbokgung em Seul, na Coreia do Sul

Big Hit Music/ Divulgação 5 de 5

Figurino de retorno do BTS

Songzio/Divulgação

Para Dani, o crescimento dessas produções representa uma perda relativa da hegemonia da música em inglês. Isso exige que a indústria passe a investir em diferentes mercados e distribuir esses conteúdos para o restante do mundo. Enquanto as premiações acompanham essa transformação, também tentam administrá-la sem necessariamente promover uma redistribuição de poder.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles Entretenimento

“Criar uma categoria específica pode parecer reconhecimento, mas também pode funcionar como confinamento. Quando a produção anglófona é chamada simplesmente de ‘pop’, enquanto as demais produções precisam ser qualificadas como ‘asiáticas’, ‘latinas’, ‘urbanas’ ou ‘globais’, o centro continua sendo tratado como universal e todo o restante aparece como particular ou periférico”, explica.

A coordenadora da Abramus também relaciona a criação de categorias específicas a uma lógica que esteve presente em classificações como “música urbana”, que reuniam gêneros e manifestações bastante distintos. “A indústria reconhece a força econômica dessas músicas, mas evita colocá-las no mesmo plano simbólico das categorias centrais. Em outras palavras: o centro não precisa dizer de onde vem, só a periferia precisa carregar um sobrenome.”

Decisão do BTS é plausível?

A justificativa apresentada pelos músicos coreanos é válida, segundo Dani Ribas. Ela avalia que a criação de uma categoria específica só pode ser considerada inclusiva quando amplia as possibilidades de reconhecimento sem impedir que esses artistas concorram também nas principais categorias da premiação.

“O gesto do BTS é importante porque não apenas denuncia essa lógica, mas se recusa a endossá-la. O grupo conquistou uma posição que lhe permite transformar a ausência em uma tomada de posição pública. E, embora a Coreia do Sul seja hoje parte do Norte Global em termos econômicos, essa recusa também fortalece artistas de regiões e gêneros que a indústria continua chamando de periféricos“, explica.

A pesquisadora musical Kamille Viola também considera a decisão pertinente e destaca o caráter estratégico do posicionamento. Para ela, a ampla base de fãs do grupo ajuda a colocar o debate em evidência e aumenta a pressão sobre a premiação. “Acho que eles acertaram, no lugar que ocupam hoje na indústria, em levantar essa questão. É uma discussão que já foi levantada por outros artistas em relação a outras categorias”, afirma.

BTS na final da Copa do Mundo de 2026

Ela reforça ainda que a ausência de uma vitória no Grammy não necessariamente impede o sucesso de um artista. Embora o prêmio possa trazer impactos para uma carreira, o reconhecimento da Academia de Gravação, responsável por organizar o prêmio, não é o único indicativo de relevância ou desempenho no mercado.

Embora o grupo de K-pop abra mão dessa possível validação, a premiação musical também pode perder a audiência e o engajamento de uma das maiores bases de fãs da música. “Só mesmo um fenômeno como o BTS, com números tão expressivos e fãs tão mobilizados, para conseguir bater de frente com o Grammy e fazer um movimento que pressione a premiação”, completa a pesquisadora.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Yasmin Rajab.