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Raias não sorriem: anatomia do animal cria a falsa impressão de felicidade

Por Maria Alves
Daka/Pexels

Vídeos e fotos de raias que parecem mostrar os animais “sorrindo” enquanto recebem carinho ou são alimentadas tornaram-se um fenômeno recorrente nas redes sociais. Para o público, a cena costuma ser interpretada como um gesto claro de felicidade. No entanto, do ponto de vista da biologia e da neurobiologia animal, a história é outra: a expressão simpática não passa de uma coincidência anatômica e de uma ilusão criada pela mente humana.

O que muitos enxergam como um olhar amigável é, na verdade, uma combinação de estruturas da face ventral (a parte inferior) da raia.

“A abertura que é interpretada como sorriso é a boca, enquanto os dois pontos que muitas pessoas confundem com olhos correspondem às narinas, envolvidas no sistema olfatório”, explica Fernando Resende, professor de medicina veterinária no Uniceplac. Ele esclarece que os olhos verdadeiros ficam na superfície dorsal — na parte superior do corpo —, permitindo que a raia observe o ambiente enquanto busca alimento no leito dos rios ou oceanos.

Essa projeção de características humanas em objetos ou animais é um fenômeno psicológico conhecido como pareidolia. A professora de biologia Carol Braga, aponta que o cérebro humano é programado para reconhecer padrões familiares.

“A disposição dessas estruturas acaba lembrando dois olhos e uma boca sorrindo, e o nosso cérebro imediatamente reconhece aquilo como um rosto. Mas, anatomicamente, não é uma expressão facial de felicidade”, destaca a bióloga.

Para a divulgação científica e a conservação marinha, essa percepção ambígua traz vantagens e desafios. Por um lado, o visual cativante desperta a empatia do público. “Estudos sobre antropomorfização mostram que perceber características humanas nos animais pode estar associado a maior preocupação com sua proteção”, aponta Resende.

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Há, por outro lado, o risco de mascarar situações prejudiciais ao animal. Como alerta Carol: “Um animal que parece estar ‘sorrindo’ pode, por exemplo, estar sendo manipulado ou submetido a uma situação de estresse”.

Raias têm sentimentos ou sentem dor?

Superada a ilusão do “sorriso”, surge a dúvida: raias podem sentir emoções ou dor? A resposta exige separar o estresse fisiológico de estados subjetivos como a felicidade.

O estresse em elasmobrânquios (grupo que reúne raias e tubarões) é amplamente documentado, com alterações metabólicas mensuráveis causadas por captura, contenção ou manipulação. Quanto à dor e ao bem-estar, a ciência tem avançado rapidamente.

Embora peixes ósseos tenham uma senciência — capacidade consciente de sentir sensações — mais estudada, evidências comportamentais e neurobiológicas indicam que os peixes cartilaginosos também respondem a estímulos nocivos de maneira complexa.

No entanto, classificar essa sensibilidade como “felicidade” ainda não tem respaldo científico. “Existem evidências de aprendizagem, memória, preferência, habituação e comportamento social em tubarões e raias, mas a investigação experimental de estados emocionais positivos nesses animais ainda é limitada”, afirma Resende.

Apesar disso, raias podem demonstrar capacidade de aprendizagem associativa, memória espacial e discriminação visual. Espécies de água doce do gênero Potamotrygon, por exemplo, foram documentadas utilizando jatos d’água para manipular objetos e obter alimentos.

Um estudo recente realizado no Aquário de São Paulo mostrou que o enriquecimento alimentar, como esconder o alimento no substrato, estimula comportamentos naturais de busca, aumentando a diversidade comportamental e reduzindo a inatividade do animal.

Além disso, em rotinas de aquários, raias aprendem a associar a presença de cuidadores ou horários específicos com a oferta de comida, aproximando-se da superfície por condicionamento e antecipação. Em vez de descartar as imagens virais das redes sociais, pesquisadores e educadores defendem transformar o fascínio popular em aprendizado real.

“A melhor estratégia é justamente usar o mito como porta de entrada para a ciência”, sugere Resende. A partir do interesse pelo falso “sorriso”, é possível explicar a complexa biologia, os sistemas de orientação e a urgência de preservar esses intrigantes habitantes dos mares e rios.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Maria Alves.