A idade registrada na certidão de nascimento não conta toda a história sobre o envelhecimento do corpo. Um estudo publicado na última sexta-feira (14/8), na revista científica Nature Medicine, mostra que diferentes órgãos e tecidos de uma mesma pessoa podem envelhecer em ritmos distintos.
Isso significa que alguém com 50 anos, por exemplo, pode apresentar tecidos com características compatíveis com uma idade biológica maior ou menor. Os pesquisadores chegaram à conclusão após desenvolverem “relógios dos tecidos”, modelos capazes de estimar a idade biológica a partir de alterações microscópicas provocadas pelo envelhecimento.
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Cada parte do corpo pode seguir um ritmo
Os modelos apresentaram erro absoluto médio de 4,88 anos na estimativa da idade. A diferença entre a idade prevista pelo tecido e a idade cronológica foi chamada pelos pesquisadores de “lacuna de idade”.
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do Metrópoles Saúde e Ciência
Quanto maior a lacuna positiva, mais envelhecido o tecido aparentava estar em relação à idade da pessoa. Os pesquisadores identificaram indivíduos com envelhecimento acelerado em vários tecidos e outros nos quais apenas determinados órgãos apresentavam uma idade biológica maior.
Entre as principais alterações associadas ao envelhecimento estavam atrofia dos tecidos, fibrose, redução de pequenos vasos sanguíneos e menor proliferação de células epiteliais. Os tecidos biologicamente mais velhos também apresentaram associação com telômeros mais curtos e maior presença de alterações patológicas.
O que o estudo encontrou em diferentes órgãos
O trabalho não determina uma idade padrão para cada órgão. Em vez disso, mostra quanto determinados tecidos podem estar biologicamente mais velhos ou mais jovens em relação à idade cronológica de cada pessoa.
- Cérebro: pessoas que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) apresentaram envelhecimento acelerado mais pronunciado no cérebro. Entre pacientes com Alzheimer, o cérebro foi o único órgão com uma diferença de idade significativamente maior.
- Trato gastrointestinal: na doença de Crohn, o envelhecimento acelerado apareceu em tecidos do esôfago, estômago, intestino delgado e cólon.
- Pulmões: doenças respiratórias crônicas foram associadas de maneira mais evidente ao envelhecimento pulmonar.
- Pâncreas: a diabetes tipo 2 foi associada ao envelhecimento acelerado do tecido pancreático.
- Rins e outros tecidos: a insuficiência renal apareceu relacionada ao envelhecimento acelerado de diferentes partes do organismo.
- Aorta: tecidos biologicamente mais velhos apresentaram espessamento da parede e perda de integridade associados a alterações vasculares.
- Músculos: o avanço da idade foi acompanhado por alterações como atrofia e maior infiltração de gordura.
As associações não significam que uma doença necessariamente provoque o envelhecimento acelerado do órgão. Parte das análises envolvendo doenças, características demográficas e estilo de vida foi exploratória e não permite estabelecer relação direta de causa e efeito.
Idade biológica pode ajudar a entender doenças
Os cientistas também testaram uma estratégia para estimar o envelhecimento específico dos tecidos a partir de informações de expressão gênica encontradas no sangue. A proposta abre caminho para que, futuramente, métodos menos invasivos possam ajudar a acompanhar o envelhecimento de diferentes órgãos.
Por enquanto, os “relógios dos tecidos” são uma ferramenta de pesquisa e não funcionam como um exame disponível para descobrir a idade de cada órgão. A análise depende de amostras de tecidos e ainda precisa ser validada em populações maiores e mais diversas.
Os resultados reforçam, porém, que envelhecer não é um processo uniforme. Dentro de uma mesma pessoa, diferentes partes do organismo podem acumular sinais de envelhecimento em velocidades distintas, informação que pode ajudar pesquisadores a compreender melhor a relação entre idade, funcionamento dos órgãos e desenvolvimento de doenças.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Isabella França.




