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Soninha e o gravador que assombrava os poderosos

Por Ricardo Noblat
PhoTon/Getty Images

O mal não é de hoje: sempre existiu e existirá. Revela-se mais acentuado quando se vive sob uma ditadura, e estranho em períodos de plena democracia.

No primeiro caso, decorre do medo ou da cumplicidade; no segundo, da formação profissional defeituosa ou simplesmente do comodismo. Em diversas ocasiões, tem a ver também com restrições impostas pelo “andar de cima” das redações.

Nas ditaduras, perguntas consideradas inconvenientes podem resultar na prisão dos seus autores; em certas democracias, no banimento deles de determinados ambientes.

O presidente Donald Trump, por exemplo, acaba de proibir a entrada na Casa Branca de jornalistas da CNN, do MS Now (antiga MSNBC) e do site Politico, acusando-os de espalharem notícias falsas.

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Ao chegar a Brasília no 18º ano da ditadura militar — que, infelizmente, ainda duraria mais três —, dei-me conta de que uma parcela expressiva dos jornalistas preferia ouvir o que lhes dissessem a se arriscar a perguntar publicamente.

Em segredo, mediante a garantia de que preservariam o sigilo da fonte ou de que não publicariam o que ouvissem, os repórteres perguntavam — alguns com receio, é verdade.

À época, o país era governado pelo general João Baptista Figueiredo, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), famoso por espionar a vida de todo mundo.

Em 1978, já escolhido por seus pares para suceder ao general Ernesto Geisel, Figueiredo, amante de cavalos, virou manchete dos jornais ao responder assim à pergunta sobre se estava gostando do contato e do “cheiro do povo”:

— “O cheirinho dos cavalos é melhor (do que o cheiro do povo)”.

Para a jornalista Sônia Carneiro, a Soninha, repórter da Rádio Jornal do Brasil, o melhor cheiro era o de sentir-se à vontade para perguntar aos poderosos o que julgasse importante.

Era o que ela fazia desde 1971 no Palácio do Planalto, no Congresso ou em qualquer outro lugar onde circulava com desenvoltura. Muitos, ao vê-la carregando seu pesado gravador, simplesmente fugiam.

O general-de-brigada Rubem Ludwig, chefe do Gabinete Militar da Presidência (1982–1985), não pôde fugir quando Soninha, um dia, lhe perguntou de chofre durante uma entrevista coletiva:

— “General, correm informações de que tropas da Vila Militar estão descendo sobre o Rio de Janeiro. É verdade?”

A pergunta tinha cabimento. Havia entre os militares um clima de tensão dada a resistência de muitos ao restabelecimento da democracia. Ludwig negou mais uma tentativa de golpe.

A recusa de Figueiredo em aceitar a realização de prévias eleitorais dentro do Partido Democrático Social (PDS) para a escolha do candidato que disputaria sua vaga inviabilizou a continuidade do regime militar, selando o destino da eleição de 1985.

Quem arrancou de Figueiredo a resposta à dúvida que atormentava o mundo político? Soninha, é claro.

Assim como seria ela, em entrevista do presidente Fernando Collor transmitida ao vivo para todo o país, que, ao vê-lo tão magro, perguntou sem titubear:

— “O senhor está com AIDS?”

Collor empalideceu e disse que não.

Não pensem que Soninha se comportava como uma carrasca ou que fosse mal-humorada. Era uma doçura de pessoa. Apenas sabia que uma das funções do jornalista é a de perguntar — sem raiva, mas sem medo.

Não existe pergunta inconveniente. Não existe página virada. Existe resposta inconveniente, mas esse não é um problema nosso.

Deixou de ser também de Soninha, que morreu ontem à tarde, aos 74 anos. O jornalismo está de luto.

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Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.