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Tarifaço: governo Lula crê que EUA só retomará conversas após eleição

Por Alice Groth
Ricardo Stuckert / PR

Interlocutores do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que os Estados Unidos só devem retomar as negociações comerciais com o Brasil, incluindo o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, após a eleição presidencial deste ano.

Entre auxiliares ouvidos pelo Metrópoles, a leitura predominante é de que a gestão de Donald Trump tende a considerar pouco vantajoso retomar conversas com um governo que não atende às concessões desejadas pelos EUA a menos de três meses do pleito que definirá o próximo presidente da República até 2030.

Como mostrou o Metrópoles, o governo norte-americano solicitou ao Brasil a adoção de medidas para restringir investimentos estrangeiros no setor de minerais críticos e terras raras por atores “extra-hemisféricos”, ou seja, de fora do Hemisfério Ocidental. Sem menção explícita, segundo auxiliares brasileiros envolvidos nas negociações, o pedido teve como alvo a China.

A solicitação foi feita no início deste ano, durante uma das rodadas de negociação entre equipes de alto nível dos dois países sobre as relações comerciais bilaterais. O Brasil, porém, rejeitou a proposta, por considerá-la inadequada.

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No campo dos minerais críticos e terras raras, o presidente Lula defende a universalidade dos investimentos, sem priorização de parceiros comerciais, e a realização do refino em território nacional, como forma de desenvolver a indústria e fortalecer a economia brasileira. O país detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China.

Autoridades norte-americanas também solicitaram a abertura total do setor químico, a redução a zero das tarifas sobre bens industriais e maior acesso ao mercado automotivo, entre outras demandas. As propostas não foram aceitas pelo governo brasileiro, que identificou potenciais prejuízos a setores nacionais.

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Mesmo com a tarifa prevista para entrar em vigor na próxima quarta-feira (22/7), a orientação no Executivo é buscar a ampliação da lista de exceções, que já contempla mais de 2 mil categorias de produtos brasileiros. No curto prazo, contudo, a gestão Lula também não enxerga disposição dos EUA para avançar nesse diálogo.

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Novo embate comercial entre Brasil e Estados Unidos reacende discussões sobre tarifas e leva governo e Congresso a avaliarem estratégias de reação à proposta norte-americana de taxar produtos brasileiros

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Marco Rubio e Flávio Bolsonaro

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Presidentes se reuniram na Casa Branca

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Os presidentes dos EUA e do Brasil, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva

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Marco Rubio e Mauro Vieira em Washington

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Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Marco Rubio e Flávio Bolsonaro

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Lula e Trump em encontro na Casa Branca

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Trump em encontro com Lula

Andrew Harnik/Getty Images

Influência de Rubio

Caso o vencedor da eleição seja o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a relação com o governo norte-americano já é vista como encaminhada.

No início de junho, poucos dias após se reunir com Trump na Casa Branca, o parlamentar enviou uma carta ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmando estar “preparado” para colocar sua equipe de transição “imediatamente” à disposição, caso vença as eleições. Rubio respondeu agradecendo a “generosa oferta”.

Segundo fontes, embora integrantes do governo norte-americano afirmem publicamente que manterão os canais de diálogo com o Brasil abertos, a avaliação é de que as tratativas só devem avançar após as eleições. Como exemplo, interlocutores do Planalto citam a manifestação de Rubio após a confirmação da tarifa de 25% contra o Brasil.

Em publicação nas redes sociais, o secretário afirmou que o Brasil não negociou de “boa-fé” com os EUA sobre as tarifas. Rubio declarou ainda que as políticas econômicas de Lula são prejudiciais tanto para norte-americanos quanto para brasileiros e que o presidente “colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.

A declaração gerou irritação no governo brasileiro. Segundo integrantes da gestão, a manifestação foi pensada para favorecer Flávio Bolsonaro, já que foi repercutida por ele e aliados para sustentar a narrativa de que Lula seria responsável pelas tarifas.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou, em pronunciamento, que as declarações são “inaceitáveis e ofensivas” e que Rubio atacou Lula “de forma grosseira e arrogante”.

O Brasil também avalia que há forte influência de uma ala mais ideológica do Departamento de Estado dos EUA, liderada por Marco Rubio, nas decisões de retaliação ao país desde o primeiro tarifaço. A gestão Lula sustenta que a taxação tem caráter político e ideológico e que os argumentos apresentados pelos EUA carecem de base técnica.

Tarifaço contra produtos brasileiros

  • Na noite da última quarta-feira (15/7), os EUA decidiram taxar alguns produtos brasileiros em 25% após investigação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre práticas comerciais brasileiras. A tarifa entra em vigor a partir da próxima semana, no dia 22 de julho.
  • Após a conclusão da investigação, o governo brasileiro tentou negociar com representantes americanos, no entanto, o diálogo entre as equipes não resultou na reversão das taxas.
  • O governo do Brasil se pronunciou sobre o assunto e condenou a imposição de tarifas, chamando a medida de desproporcional e inaceitável.
  • A gestão Lula pretende utilizar a Lei de Reciprocidade. “O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”, afirmou o texto.
  • Apesar da tarifa geral sobre produtos brasileiros, o documento que oficializa a nova taxação apresenta uma lista detalhada de isenções. Entre os itens que não serão taxados, destacam-se, por exemplo, café, mel orgânico, açaí, carne bovina, laranja, terras-raras e outros.
  • Já entre os produtos taxados, estão: etanol, máquinas agrícolas, calçados, vestuário, produtos químicos diversos, papel, açúcar e outros.

Relação entre Lula e Trump

O governo tem adotado cautela em relação às manifestações públicas de Lula sobre o tema. A diplomacia brasileira entende que, caso haja uma declaração direta de Trump, será avaliada a resposta pública do presidente.

Na sexta-feira (17/7), durante agendas no Rio de Janeiro, Lula afirmou que aguardará um posicionamento direto do líder norte-americano antes de comentar o tarifaço. Ainda assim, disse que pretende travar uma “guerra da narrativa e da verdade” sobre o tema e que Trump “vai ter que aprender a fazer guerra” com a “arma da palavra”.

Neste momento, não há previsão de contato direto entre os dois líderes — nem por iniciativa brasileira, nem por parte dos EUA. A possibilidade, no entanto, não é descartada, caso seja considerada necessária.

A relação entre Lula e Trump, portanto, deve permanecer “pragmática” e “correta”, segundo auxiliares do governo.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Alice Groth.