Lucas brigou com o pai, terminou com a namorada e arranjou um trampo, tudo na mesma semana. Não soube concluir se eram situações isoladas, se tinham uma conexão ou admitiam uma ordem, por exemplo, terminou o namoro, por isso brigou com o pai e assim conseguiu um emprego. Havia sim um sentido nítido naquilo tudo: a liberdade. Abandonava os hábitos dissimulados e sem afeto do pai, que afagava a ideia de família enquanto cultivava uma fidelidade crua com as mentiras. A relação com Miriam, sua namorada, era uma miniatura machista do casamento dos pais, e Lucas avistava seu potencial explosivo nos detalhes e silêncios entre os dois. O trabalho em uma loja consolidaria a saída de casa, deixaria o doce cárcere recheado de julgamentos muitos e poucas escutas. Não sabia quem seria, mas queria ser um homem diferente do que os espelhos ensinavam.
Flávio rangeu os dentes quando Rangel aterrissou um balde com quatro cervejas na mesa e desatou a falar sobre dinheiro, mulheres e baladas. Suas palavras reluziam, os amigos empilhavam interjeições de aprovação e fascínio. Rangel era só glória. Flávio se incomodava não por inveja, sentia raiva. O cara estava ali, arrotando Ferrari enquanto pagava trezentos reais de pensão alimentícia para a filha. E ainda atrasava. E teve mês que nem pagar pagou. Precisava expor a situação, mas isso pouco valia, sabia que ao menos metade ali conhecia a molecagem, não pelos outros, mas pelo próprio Rangel, que vez ou outra lamuriava-se do pagamento como se fosse forca. Não entendia por que sua ex-mulher não chamava a Justiça; não entendia por que, mesmo indignado, mantinha-se à mesa. Era como se estivesse preso a um pacto silencioso e violento cujo inimigo comum eram as mulheres. Abrir a boca seria romper esse contrato arcaico. Levantou-se rispidamente. Todos o olharam, enquanto ele decidia entre dizer que iria ao banheiro ou desatava os nós da verdade.

