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Vícios podem agravar sofrimento mental e vulnerabilidade ao suicídio

Por Isabella França
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*Aviso: esta matéria aborda temas como depressão e suicídio. Se você enfrenta problemas ou conhece alguém que está nessa situação, veja ao final do texto onde buscar apoio.

O consumo de álcool e outras drogas pode aumentar a vulnerabilidade a comportamentos suicidas, principalmente quando ocorre junto à depressão, à desesperança, à impulsividade ou a outros transtornos mentais.

A relação, porém, não é de causa e efeito: o suicídio é um fenômeno multifatorial, influenciado por diferentes condições individuais, sociais e psicológicas.

Segundo a psicóloga Lucineide Guimarães, de São Paulo, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia dos Esquemas, algumas pessoas recorrem às substâncias como forma de aliviar emoções difíceis. O efeito é temporário e pode favorecer um ciclo de consumo, culpa e novo sofrimento.

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“A frustração de não conseguir lidar com um sofrimento emocional, de não conseguir encontrar respostas para um vazio, gera uma sensação de vergonha, impotência e fracasso. Essas pessoas acabam utilizando substâncias que produzem um alívio imediato”, explica.

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Quando o consumo vira um problema

Nem todo consumo exagerado caracteriza dependência. Os sinais de alerta aparecem quando a relação com a substância começa a provocar perda de controle e prejuízos na rotina, no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos.

Entre os critérios avaliados estão tentativas frustradas de diminuir ou interromper o consumo, necessidade de quantidades maiores, desejo intenso de usar a substância, abandono de atividades importantes e manutenção do comportamento apesar das consequências.

“Também começam a aparecer problemas no trabalho, nos estudos e em outras áreas da vida. A pessoa passa a deixar responsabilidades na mão de outras pessoas. Surgem problemas interpessoais com o parceiro, com os filhos, com os amigos”, afirma Lucineide.

Para o psiquiatra Danillo Bastos, também de São Paulo, a motivação por trás do consumo também merece atenção. Usar álcool ou outras drogas repetidamente para esquecer problemas ou aliviar sofrimento pode indicar uma relação problemática, mesmo antes de grandes prejuízos aparecerem.

“Se você toma duas latinhas de cerveja com a intenção de esquecer seus problemas, isso já acende um sinal amarelo para mim. Não pela quantidade consumida, mas pela intenção por trás do consumo”, explica.

Por que a vulnerabilidade pode aumentar

Bastos ressalta que intoxicação, abstinência e recaídas são períodos de maior vulnerabilidade. O uso de substâncias pode aumentar a impulsividade, comprometer o julgamento e agravar transtornos psiquiátricos preexistentes.

O cenário exige atenção especial quando há depressão. A desesperança pode dificultar a percepção de alternativas para enfrentar uma crise, enquanto a impulsividade reduz o tempo dedicado à avaliação das consequências de uma ação.

“Quando somamos esse sentimento de desesperança ao aumento da impulsividade provocado pelo uso de substâncias, temos uma combinação especialmente preocupante”, afirma o psiquiatra.

O uso problemático de álcool e outras drogas pode agravar o sofrimento psíquico e aumentar a vulnerabilidade a comportamentos suicidas

Isolamento crescente, abandono de atividades, mudanças marcantes de comportamento, falas recorrentes sobre falta de sentido na vida e atitudes que lembram uma despedida podem indicar sofrimento intenso.

“Nem sempre alguém em sofrimento vai dizer diretamente que quer morrer ou tirar a própria vida. Muitas vezes, ela começa a demonstrar que a vida perdeu o sentido, passa a se desculpar excessivamente por coisas que fez, apresenta comportamentos que lembram uma despedida ou adota um padrão de isolamento cada vez maior”, diz o psiquiatra.

A abordagem de familiares e amigos deve evitar julgamentos. Lucineide recomenda demonstrar preocupação e abrir espaço para que a pessoa consiga falar sobre o que está vivendo.

“Aqui, o mais importante não é apenas a pergunta, mas quem vai fazê-la, quem vai abordar essa pessoa. É fundamental que a abordagem aconteça sem preconceitos e sem julgamentos”, orienta.

Perguntar diretamente pode ajudar

Quando existem sinais de risco, perguntar diretamente se a pessoa pensa em suicídio não incentiva a prática e pode abrir espaço para uma conversa. Diante de risco imediato, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de urgência.

Dependência e sofrimento mental também devem ser avaliados em conjunto. O tratamento pode incluir acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia, medicamentos quando indicados e fortalecimento da rede de apoio.

No SUS, a assistência pode começar nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Em emergências, o SAMU atende pelo 192, enquanto o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.

*Se você está passando por depressão, tendo pensamentos de suicídio ou conhece alguém nessa situação, procure apoio. Você pode ligar ou conversar pelo chat dos seguintes serviços:

    • Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (24h, ligação gratuita e sigilosa) ou pelo site cvv.org.br;
    • Samu: 192 em situações de emergência médica;
    • CRAS/CRAS locais e serviços de saúde mental do SUS também oferecem suporte psicológico.

Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Isabella França.