A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, chefe da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, pegou o Itamaraty de surpresa. E, com isso, mostrou como o futuro das relações diplomáticas entre Brasília e Washington caminha para um cenário de incertezas nos próximos meses, às vésperas das eleições brasileiras.
Viotti, que chefia a representação brasileira nos EUA desde 2023, teve o visto cancelado devido à demora do Ministério das Relações Exteriores em conceder o aval a Daniel Perez para assumir o cargo de embaixador norte-americano no Brasil.
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do Metrópoles
Crise Brasil x EUA
- A crise entre Brasil e EUA começou no primeiro semestre de 2025, meses após Trump assumir a Casa Branca pela segunda vez.
- A tensão surgiu após o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro deixar o cargo na Câmara dos Deputados e viajar aos Estados Unidos, em busca de apoio da administração Trump contra o julgamento de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
- Meses depois das conversas de Eduardo com autoridades norte-americanas, o Brasil foi incluído no tarifaço imposto pelo presidente dos EUA contra diversos países do mundo.
- Além da alíquota de 10%, os produtos brasileiros foram sobretaxados em 40%. À época, Trump justificou a decisão como sendo uma resposta ao julgamento de Bolsonaro no STF.
- A administração norte-americana também mirou em autoridades do Supremo e suspendeu o visto de diversos juízes da Corte na tentativa de intervir no processo contra o ex-presidente brasileiro.
- Em novembro de 2025, os EUA retiraram partes das tarifas contra o Brasil após conversas entre Trump e Lula.
- Nos últimos meses, e com a proximidade das eleições, a crise voltou.
- Atualmente o Brasil é alvo de tarifas que, somadas, atingem a casa dos 37,5%. Os EUA justificam as alíquotas com acusações sobre práticas que afetam a economia norte-americana e suspeita de trabalho forçado.
Para fontes da diplomacia norte-americana ouvidas sob condição de reserva, a relutância do Brasil em aceitar o agrément de Perez— como o aval é chamado na diplomacia — é vista como uma tentativa de interferência nos “processos internos” dos EUA.
O Brasil, no entanto, rejeita as acusações e enxerga a situação como parte de uma escalada da ações norte-americanas contra o país, com o suposto objetivo final de intervir nas eleições brasileiras.
Assim como a revogação do visto de Viotti, o Itamaraty só ficou sabendo da indicação de Perez para a Embaixada dos EUA no Brasil por meio de comunicados públicos e informações divulgadas pela imprensa, o que contraria tratados internacionais e protocolos diplomáticos.
“O processo de concessão de agrément é confidencial e o nome designado só deveria vir a público depois de concedida a anuência, conforme estipula o artigo 4 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas”, rebateu o governo brasileiro ao falar sobre a justificativa usada pelos EUA para revogar o visto da embaixadora brasileira.
Embaixadora deve seguir nos EUA
Apesar da revogação do visto, a embaixadora do Brasil nos EUA pode permanecer no país. O que muda é que, a partir de agora, Viotti precisará solicitar uma nova permissão de viagem caso deixe o território norte-americano.
Até o momento, não está claro como a decisão do governo Trump afetará a manutenção da diplomata no posto em Washington. No entanto, se ela deixar o posto e o aval de Perez não for concedido, as relações diplomáticas entre Brasília e Washington, podem ser automaticamente rebaixadas.
Desde janeiro de 2025, a Embaixada dos EUA no Brasil está sem embaixador, o que é visto como um sinal de enfraquecimento de laços diplomáticos entre os dois países.
O mesmo pode acontecer na Embaixada do Brasil em Washington, deixando as duas representações nas mãos de diplomatas de menor escalão.
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Embaixadora Maria Luiza Viotti
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Embaixadora Maria Luiza Viotti
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Maria Luiza Viotti, embaixadora do Brasil nos EUA que teve o visto revogado pelo governo Trump
Jefferson Rudy/Agência Senado4 de 5Pazulo Filgueiras/UN Photo5 de 5
Embaixadora Maria Luiza Viotti
Rick Bajornas/ONU
Histórico de revogações de vistos
A revogação do visto de Viotti não é o primeiro caso desde que Trump reassumiu o poder nos EUA. Atualmente, diversas autoridades brasileiras estão proibidas de entrar no território norte-americano, entre elas integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e ministros do governo Lula.
Em julho de 2025, o Departamento de Estado dos EUA revogou o visto de oito ministros do STF, acusando-os de praticar uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado meses depois a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
A decisão afetou os magistrados Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Edson Fachin, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso.
Um mês depois foi a vez do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e ex-funcionários do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) perderem permissões de viagem aos EUA. A revogação, informou o secretário de Estado Marco Rubio, foi uma retaliação pela parceria entre Brasil e Cuba no programa Mais Médicos.
Membros da Advocacia Geral da União (AGU), Procuradoria-Geral da República (PGR) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também foram alvo das medidas.
O governo brasileiro também já impediu que integrantes do governo norte-americano, todos eles ligados à diplomacia do país, viajassem ao Brasil.
Um deles foi Darren Beattie, assessor de Trump que tentou entrar no Brasil para visitar Jair Bolsonaro, à época cumprindo pena na Papudinha. O visto, no entanto, acabou negado após o Itamaraty constatar que o diplomata apresentou informações falsas, que ocultavam a possível reunião com o ex-presidente.
O mesmo aconteceu no último fim de semana com Riley M. Barnes e Samuel D. Samson. Os dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA viriam ao Brasil para manter reuniões com Flávio Bolsonaro (PL) e autoridades eleitorais, mas não receberam vistos depois de relatos sobre uma “missão” contra as eleições brasileiras.
O objetivo seria levantar dúvidas sobre a segurança do processo eleitoral, classificado como confiável por diversos países e observadores internacionais que costumam acompanhar as eleições do país.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Junio Silva.




