Duzentos anos depois, o Brasil ainda peleja no divã da história com seu transtorno obsessivo colonial, dessa vez, assombrado pelo pesadelo de um banco Master. Quem sabe, seja uma vocação daquelas, de nascença. Talvez, um gene, hereditário. Ou, Deus nos livre, um cancro, incurável. Em 2022, Laurentino Gomes transcrevia em seu avassalador “Escravidão III” alguns trechos do abolicionista Joaquim Nabuco, que vestem perfeitamente a nossa Terra da Santa Cruz ainda hoje.
“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”. (O Abolicionismo, 1883).
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do Metrópoles
Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, milhões de africanos e indígenas haviam sido raptados, escravizados ou mortos (de fazer inveja a qualquer maníaco do holocausto). A República só chegaria um ano depois – um golpe de Estado patrocinado por escravocratas ressentidos com o rei – liberal demais para nossas elites. O conceito brasileiro de República no século XIX ainda era dissociado da definição de democracia (por aqui considerada uma ideia anárquica). Quem sabe, aquela primeira visão de república – autoritária e concentradora – persista no DNA brasileiro. Quem sabe, explique, até hoje, a naturalidade das desigualdades, da devastação ambiental, da violência e dos arrotos antidemocráticos, bancados por tantos Vorcaros festejados na vida brasileira.
Felipe Sampaio: Cofundador do Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; sócio da Terra Consultoria e Inovação; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; foi diretor de programa no Ministério do Empreendedorismo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Blog do Noblat.




