PM transforma jovem em assassino sem remorso, diz tenente-coronel reformado

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Josmar Jozino

Passados 35 anos de seu ingresso na PM (Polícia Militar) paulista, o tenente-coronel aposentado Adilson Paes de Souza, 56, não esqueceu o seu primeiro dia na corporação, em 15 de dezembro de 1984. Foi quando ele afirma que 300 oficiais calouros acabaram recepcionados com um trote violento e humilhante.

“Não fomos tratados como seres humanos. As pessoas não falavam conosco, elas gritavam e nos ofendiam e se referiam a nós com expressões do tipo bicho, animal, verme, etc. Hoje vejo que estava em curso um processo de despersonalização do sujeito”.

Essas e outras lembranças são narradas na tese de doutorado “O policial que mata: um estudo sobre a letalidade praticada por policiais militares no estado de São Paulo”, defendida pelo tenente-coronel Souza no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, no último dia 7.

Procurada pela coluna, a Polícia Militar afirma que a prática de trotes violentos é proibida pela corporação. “A suposta experiência pessoal do oficial há 38 anos não poderia ser usada como argumento válido para os dias de hoje.”

Em sua tese, Souza conta que a “recepção” no quartel foi com tiros de balas de festim; disparos de munição química; corrida na mata onde havia caixas com abelhas; ordens para deitar em um lamaçal e dominar com as próprias mãos um porco solto no terreno imundo e encharcado.

Depois de formado, o jovem oficial trabalhou em várias unidades. Mas o primeiro local para onde acabou transferido foi o Batalhão de Choque. E as lembranças também não são nada animadoras, conforme trechos relatados na tese de doutorado.

Choques na madrugada

Souza lembra que dessa vez o “ritual de passagem foi fundado na violência e na negação da dor”. Segundo o trabalho de doutorado, houve sessões de violência física, como aplicação de choques elétricos, golpes de cassetete e até confinamento em sala fechada com gás lacrimogêneo.

Era época da ditadura militar. Os choques, segundo Souza, eram aplicados por meio de uma bobina de aparelho telefônico de modelo antigo acionada por uma manivela e conectada a fios. Era comum também ser acordado à noite e torturado no batalhão com mais choques.

O Batalhão de Choque já era considerado uma tropa de elite, onde imperava a lei do silêncio. Nada do que acontecia lá podia ser compartilhado com outras pessoas, incluindo integrantes da família e até policiais de outras unidades.

O tenente-coronel narra na tese que no Batalhão de Choque, em conversas não oficiais, “era sedimentada a ideia do extermínio de marginais como única medida plausível de combate à criminalidade”. Segundo ele, essas frases eram ditas não apenas por oficiais, mas também por subordinados.

“Jovens idealistas viram assassinos sem remorso”

Ao UOL, Souza afirmou nesta terça-feira (25) que as violências físicas e psicológicas impostas aos novatos e a disseminação de ideias de extermínio de marginais são alguns dos atos que fazem da Polícia Militar do Estado de São Paulo uma das mais letais do Brasil e do mundo e com alto índice de suicídio.

Segundo a PM, “essa afirmação não tem amparo em estudos científicos, mas em senso comum. Na relação por 100 mil habitantes, a taxa de mortes em confronto com a PM é uma das mais baixas do Brasil (2019: 1,63 por 100 mil/hab), muito embora a quantidade de confrontos seja consideravelmente alta mostrando que os infratores estão disposto a enfrentar as forças policiais.”

“Esses atos não são isolados e podem produzir nos policiais militares uma atitude mais hostil, mais viril. Essa forma de tratamento sem dúvida vai atingir outras pessoas durante o patrulhamento e nas abordagens”, ressaltou Souza. Como fontes de pesquisa, o tenente-coronel entrevistou policiais militares. Os relatos são sobre os constantes maus-tratos e as humilhações na formação e no cotidiano do policial militar. Os entrevistados disseram que os alunos são expostos ao cansaço extremo e violências física e verbal.

Na tese de doutorado de Souza, a escola de formação de policiais militares é definida como “uma fábrica de atrocidades que transforma o jovem idealista em assassino frio e sem remorso”.

Na Noruega, terrorista foi preso sem um arranhão

Na opinião do tenente-coronel, os alunos PMs são submetidos ” a métodos pedagógicos violentos e macabros” e o estresse sofrido tem como objetivo “direcionar a raiva contra o inimigo para que o policial esteja apto a atuar em situações em condições reais, estando assim pronto para matar”.

Souza também viajou para a Noruega como parte dos estudos de doutorado. O motivo que o levou a escolher aquele país foi a prisão, sem nenhum arranhão, do autor de dois atentados terroristas de grandes proporções ocorridos em 22 de julho de 2011.

O norueguês Anders Breivik colocou explosivos no prédio do escritório do primeiro-ministro do país, em Oslo, matando seis pessoas. Depois foi a um acampamento na Ilha de Utoya, onde havia um evento anual da juventude do partido do premiê norueguês, e assassinou outras 68 pessoas. O tenente-coronel Souza ficou intrigado com o fato de Breivik, mesmo armado, ter sido preso ileso. Nenhum policial atirou no terrorista.

Posteriormente, Breivik processou e venceu o Estado ao reclamar de tratamento desumano na prisão. Na ação, o assassino questionou o prolongado confinamento em solitária — quase cinco anos —, o uso excessivo de algemas, revistas repetitivas e o fato de ser despertado durante a noite.

 

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