25 maio 2024

A morte trágica de Chorão, líder do Charlie Brown Jr. e herói de uma geração, há dez anos

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O roqueiro Chorão, do Charlie Brown Jr., na pista de skate do Arpoador, no Rio, em 1999 — Foto: Leonardo Aversa/Agência O GLOBO

O apartamento de 250 metros quadrados no bairro de Pinheiros, em São Paulo, estava toda revirada, mas não havia sinais de arrombamento. Tinha um pouco de pó branco na bancada da cozinha, além de frascos de medicamentos, latas de refrigerante, de cerveja e garrafas de vinho vazias espalhados. No chão, jazia o corpo de Alexandre Magno Abrão, o Chorão. Vocalista da banda Charlie Brown Jr., ícone da “geração MTV”, o roqueiro de comportamento explosivo foi achado estirado de bruços, vestindo bermuda e camisa, ao lado de lascas do enchimento de um saco de pancadas.

O corpo foi encontrado pelo motorista do músico, na madrugada do dia 6 de março de 2013, há dez anos. Assim como os amigos de Chorão, o funcionário vinha tentando falar com o artista desde a véspera, sem sucesso. De acordo com a polícia, ele provavelmente morrera um ou dois dias antes daquela quarta-feira. Um mês depois da morte do roqueiro, que causou comoção no Brasil, um laudo do Instituto Médico Legal (IML) informou que o cantor de 42 anos sucumbiu devido a uma overdose de cocaína, cujos efeitos foram agravados por problemas cardíacos anteriores.

“Perdi um dos melhores amigos que já tive na vida, era meu irmão. Nossa amizade tinha 21 anos”, lamentou, emocionado, o músico Champingon, baixista do Charlie Brown Jr., que se mataria com um tiro de pistola na cabeça apenas seis meses depois da morte do líder da banda.

Chorão com a sua mulher, Graziela, em imagem do documentário 'Chorão: Marginal Alado' — Foto: Reprodução

Chorão com a sua mulher, Graziela, em imagem do documentário ‘Chorão: Marginal Alado’ — Foto: Reprodução

O grupo estava de férias, mas havia um show agendado para o fim daquele mês. Dias antes, o cantor lançara o single do álbum que a banda de Santos (SP) estava se preparando para divulgar. Mas, de acordo com Graziela Gonçalves, que foi casada com Chorão durante 15 anos, o roqueiro vinha lutando com uma depressão. No livro “Se não eu, quem vai fazer você feliz”, lançado em 2018, ela relatou que o estado emocional do artista era péssimo e que, em busca de dar um novo sentido para sua vida, em 2012, o músico tentara até se tornar bombeiro e entrara em desespero ao não conseguir.

“Apesar do retorno recente e bem-sucedido da formação antiga do Charlie Brown Jr., com uma agenda cheia de shows para cumprir, o estado de espírito dele era a insatisfação permanente”, escreveu Graziela. A viúva contou que Chorão queria fazer algo que o fizesse sentir vivo de novo. “Com essa ideia na cabeça, o Alê foi até o Corpo de Bombeiros, perto do prédio onde moramos em Santos (…) Ele voltou depois, com o rosto molhado das lágrimas que ainda caíam. O Alê descobriu que existe uma série de exigências para ser bombeiro. Uma delas era a idade, que ele já tinha ultrapassado”.

De acordo com Graziela, aquela frustração aprofundou a angústia do roqueiro. “O Alê, que todos conheciam como Chorão, tinha alcançado tudo o que um dia sonhara para a sua vida. No entanto, nunca havia se sentido tão infeliz”, diz Graziela em outro trecho de seu livro.

Chorão durante um show no Brasília Music Festival, em 2003 — Foto: Roberto Stuckert Filho/Agência O GLOBO

Chorão durante um show no Brasília Music Festival, em 2003 — Foto: Roberto Stuckert Filho/Agência O GLOBO

O documentário “Chorão: Marginal alado” (2019), de Felipe Novaes, retrata um músico carismático, de atitude rebelde e com um talento ímpar para escrever letras que se comunicavam diretamente com a geração de jovens das grandes cidades no final dos anos 1990. Músicas como “Proibida pra mim”, “Te levar daqui” e “Não é sério”, todas escritas pelo líder do CBJr., tornaram-se hits de alcance nacional. Os shows do grupo ficavam lotados, e os dez álbuns de estúdio lançados pela banda a partir da estreia, em 1997, tiveram milhões de cópias vendidas em todo o Brasil.

Mas Chorão também era uma pessoa de temperamento difícil, centralizadora, que podia apresentar postura explosiva e autoritária ao ser contrariado enquanto líder da banda. Os desentendimentos entre ele e os outros músicos se intensificaram até que, em abril de 2005, todos os instrumentistas deixaram o grupo fazendo críticas à forma como o cantor conduzia os trabalhos. Chorão seguiu com uma nova formação e chegou a lançar dois álbuns, até que os músicos do CBJr. original retornaram em 2011. Muita gente achou que a paz reinaria, afinal, mas não foi o que aconteceu.

Chorão e Champingon continuaram a brigar, algumas vezes em cima do palco. Em 2012, o líder da banda esculachou o baixista no microfone, em alto e bom som, durante um show em Apucarana, no Paraná, dizendo que ele só tinha voltado ao grupo porque estava precisando de dinheiro.

O roqueiro foi velado no ginásio Arena Santos e sepultado no Memorial Necrópole Ecumênica. “Eu tentei de tudo que vocês podem imaginar. Mas, infelizmente, essa praga mundial que é a cocaína, que está acabando com tudo, ganhou”, disse Graziela Gonçalves, no velório. “Eu espero que outras famílias e outras pessoas não passem pelo que estou passando”. O caixão foi coberto com bandeiras do Brasil e do Santos. Chorão foi enterrado também com um skate (ele amava o esporte desde a adolescência) e com frases deixadas por seus alunos de skate.

Chorão, do Charlie Brown Jr., na pista de skate do Arpoador, no Rio, em 1999 — Foto: Leonardo Aversa/Agência O GLOBO

Chorão, do Charlie Brown Jr., na pista de skate do Arpoador, no Rio, em 1999 — Foto: Leonardo Aversa/Agência O GLOBO

POR O GLOBO

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