Início / Versão completa
Geral

Câmara aprova projeto que restringe aborto legal e acende alerta sobre direitos de meninas vítimas de estupro

Por Marcos Henrique 06/11/2025 10:26
Publicidade
Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta quarta-feira (5), por 317 votos a 111, o Projeto de Decreto Legislativo (PDL 3/2025), que anula os efeitos da Resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A norma estabelecia diretrizes para o atendimento humanizado de meninas vítimas de estupro, garantindo acesso ao aborto legal previsto em lei. O texto segue agora para análise do Senado Federal.

Publicidade

O projeto é de autoria da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), uma das principais opositoras da descriminalização do aborto no Congresso. O relator, Luiz Gastão (PSD-CE), apresentou parecer favorável à proposta, argumentando que o Conanda teria ultrapassado suas competências ao tratar do tema sem autorização legislativa.

A Resolução 258/2024 previa que meninas e adolescentes vítimas de violência sexual poderiam acessar o aborto legal sem a exigência de boletim de ocorrência, decisão judicial ou autorização dos responsáveis legais, especialmente em casos em que o abuso ocorresse dentro da própria família. Também determinava que, diante de divergência entre a vontade da criança e a dos pais, a Defensoria Pública e o Ministério Público deveriam ser acionados para garantir o cumprimento da lei.

Os autores do projeto afirmam que a norma contraria o Código Penal, que prevê a participação dos responsáveis legais em decisões que envolvam menores de idade. Para eles, a resolução também desconsidera o direito de objeção de consciência dos médicos, ao classificar como discriminatória a recusa em realizar o procedimento.

Publicidade

Durante a votação, o tema gerou intenso debate no plenário. Parlamentares da oposição criticaram o texto, afirmando que ele restringe direitos assegurados desde 1940, quando o Código Penal passou a permitir o aborto em casos de estupro e risco de vida para a gestante.

“É um absurdo obrigar meninas de 10, 11 ou 12 anos, vítimas de estupro, a carregar uma gestação forçada. A resolução apenas garante o que a lei já determina”, declarou a deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

Chris Tonietto defendeu a aprovação do projeto dizendo que “a violência sexual não pode ser combatida com outra violência, o aborto”.

O governo federal e entidades de direitos humanos reagiram com preocupação à decisão. Em notas oficiais, os ministérios das Mulheres e dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) classificaram a medida como um grave retrocesso nas políticas de proteção à infância e à adolescência.

“O PDL, ao anular essa orientação, cria um vácuo que dificulta o acesso dessas vítimas ao atendimento e representa um retrocesso em sua proteção”, afirmou o Ministério das Mulheres. A pasta também destacou que, entre 2013 e 2023, o Brasil registrou mais de 232 mil nascimentos de mães com até 14 anos, todas consideradas vítimas de estupro de vulnerável. Em 2023, apenas 154 meninas conseguiram realizar o aborto legal em todo o país.

O MDHC reforçou que a suspensão da resolução “fragiliza o atendimento especializado previsto em lei” e “contraria o princípio da prioridade absoluta” previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“Trata-se de um grave retrocesso na política de proteção à infância, que cria barreiras ao acesso a direitos fundamentais e compromete a atuação intersetorial necessária ao enfrentamento das violências”, afirmou a pasta.

Segundo o governo, a gestação forçada é a principal causa de evasão escolar feminina e resulta na morte de uma menina por semana no Brasil. Entidades médicas e de direitos humanos defendem que a resolução do Conanda apenas padronizava procedimentos para garantir o cumprimento da Lei da Escuta Protegida (Lei 13.431/2017) e da Lei do Minuto Seguinte (Lei 12.845/2013), que já dispensam boletim de ocorrência para o atendimento de vítimas de estupro.

Agora, o Senado Federal será o responsável por decidir o futuro da proposta. Se aprovada, a resolução do Conanda perde efeito em todo o país. Caso o Senado rejeite o texto, as diretrizes voltam a valer. Enquanto isso, movimentos sociais, entidades médicas e conselhos de direitos humanos prometem mobilizações em defesa do aborto legal e do atendimento humanizado a meninas vítimas de violência sexual.

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.