9 de julho de 2026

Justiça torna réu ex-marido de Maria da Penha por campanha de ódio contra a ativista

Justiça torna réu ex-marido de Maria da Penha por campanha de ódio contra a ativista
Justiça torna réu ex-marido de Maria da Penha por campanha de ódio contra a ativista

A Justiça do Ceará decidiu transformar em réus o ex-marido da ativista Maria da Penha, Marco Antônio Heredia Viveiros, e outras três pessoas investigadas por promover ataques contra a defensora dos direitos das mulheres. A decisão foi tomada após o Tribunal aceitar a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Ceará (MP-CE), que aponta a existência de uma campanha organizada para atingir a reputação da ativista e questionar a legislação que leva seu nome. Segundo o órgão, o grupo teria atuado de “forma organizada para atacar a honra da ativista e descredibilizar a lei que leva o nome dela”.

De acordo com a acusação, além de perseguições pela internet, os investigados também espalharam informações falsas e recorreram a um exame de corpo de delito adulterado para sustentar a tese de inocência de Viveiros, condenado anteriormente por tentar matar Maria da Penha.

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Veja as fotosAbrir em tela cheia Maria da Penha Maria da Penha sofreu duas tentativas de homicídio em 1983 atribuídas ao então marido, posteriormente condenado pelo crimeFoto: José Cruz/Agência Brasil

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Além do ex-marido da ativista, o MP-CE identificou como envolvidos o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva, o produtor Marcus Vinícius Mantovanelli, responsável pelo documentário “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”, e o editor e apresentador da produção, Henrique Barros Lesina Zingano.

No processo, Alexandre de Paiva é acusado de praticar intimidação reiterada e perseguição. Já Marco Antônio Heredia Viveiros responde pela suspeita de falsificação de documento público. Mantovanelli e Zingano, por sua vez, são investigados por utilizarem o documento fraudado no material audiovisual divulgado.

A denúncia também relata que, em maio de 2023, Alexandre de Paiva foi até o antigo endereço de Maria da Penha, em Fortaleza, onde gravou vídeos e publicou o conteúdo nas redes sociais. Durante a visita, ele questionou moradores sobre onde a ativista poderia ser encontrada. Em um áudio enviado a um grupo de WhatsApp que reunia outros investigados, ele declarou: “Vou lá incomodar em Fortaleza e eu vou de novo lá em frente à casa onde aconteceu o crime para incomodar a dona Maria da Penha!”.

Operação investigou grupos extremistas
O caso integra a Operação Echo Chamber, conduzida pelo Ministério Público do Ceará, que teve duas etapas — a primeira em 2024 e a segunda neste ano. Conforme as investigações, os suspeitos participavam de comunidades virtuais associadas a grupos extremistas, conhecidos como “red pills”, além de movimentos masculinistas. Nessas redes, segundo o MP, eram difundidos conteúdos misóginos, desinformação e ataques pessoais com o objetivo de minar a credibilidade da ativista e da própria Lei Maria da Penha.

Diante das ameaças registradas naquele período, autoridades adotaram medidas de proteção. Em junho de 2024, Maria da Penha passou a contar com segurança garantida pelo Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, após articulação entre o governo do Ceará e o Ministério das Mulheres. Na ocasião, a ministra Cida Gonçalves informou ainda que o imóvel da ativista, localizado em Fortaleza, seria transformado em um memorial dedicado à luta contra a violência de gênero.

As apurações indicam que os ataques não ficaram restritos ao ambiente digital. Segundo o Ministério Público, um dos investigados chegou a ir até o antigo imóvel da ativista, no bairro Papicu, local onde ela sofreu a tentativa de homicídio em 1983. Também foram identificadas iniciativas coordenadas para questionar decisões judiciais já definitivas, desacreditar a vítima e até propor mudanças ou a retirada do nome da lei do sistema jurídico brasileiro.

Na primeira fase da Operação Echo Chamber, realizada em dezembro de 2024, foram cumpridos mandados de busca e apreensão nos estados do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Já na segunda etapa, em julho de 2025, novas diligências ocorreram em Natal (RN). Durante as ações, investigadores recolheram equipamentos eletrônicos e um pen drive que continha um laudo pericial adulterado.

Foi nesse contexto que a Justiça determinou a retirada do documentário “A investigação Paralela: o caso de Maria da Penha”, produzido pela empresa Brasil Paralelo. Para o Ministério Público, o conteúdo apresentava acusações sem fundamento sobre fraude processual e utilizava um documento público falsificado para sustentar a narrativa, além de incentivar perseguições virtuais contra a ativista.

A história de Maria da Penha
Maria da Penha Fernandes tornou-se símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil. A farmacêutica cearense sobreviveu a duas tentativas de feminicídio em 1983, crime que a deixou paraplégica. O agressor foi seu próprio marido, que atirou contra ela enquanto dormia.

O processo judicial se arrastou por anos. Somente em 1991 houve uma primeira condenação, que determinou pena de 15 anos de prisão. No entanto, o réu recorreu e permaneceu em liberdade. Em 1996, um novo julgamento reduziu a pena para 10 anos e seis meses, mas novamente ele evitou o cumprimento da prisão ao alegar irregularidades no processo.

Diante da demora da Justiça brasileira, Maria da Penha levou o caso, em 1998, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 2001, o órgão responsabilizou o Brasil por negligência e recomendou mudanças na legislação para combater a violência doméstica.

A pressão internacional contribuiu para a criação da Lei nº 11.340, sancionada em 2006 e popularmente conhecida como “Lei Maria da Penha”.

Anos depois, a formalização do nome da legislação foi proposta pela deputada Laura Carneiro (PSD-RJ). O projeto recebeu parecer favorável da deputada Maria Arraes (Solidariedade-PE) e foi aprovado pela Câmara em 2024. No Senado, o texto passou em agosto de 2025 e acabou sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro do mesmo ano.