Há 50 anos, a estilista Zuzu Angel foi morta em um atentado no Rio de Janeiro, forjado como acidente de carro. A morte encerrou a trajetória de uma das vozes mais atuantes na denúncia das violações cometidas durante a ditadura militar no Brasil.
Zuzu tinha 53 anos e passou os últimos anos de vida lutando por respostas sobre o desaparecimento do filho, Stuart Angel, preso, torturado e morto em 1971 por agentes do regime. A partir desse momento, ela iniciou uma campanha pública para denunciar o caso, enfrentando diretamente o governo militar.
Segundo a historiadora Cristina Scheibe Wolff, a trajetória da estilista faz parte de um movimento maior na América do Sul, em que mães de desaparecidos transformaram a dor em ação política. Um dos exemplos mais conhecidos são as Mães da Praça de Maio, na Argentina.

Nesse contexto, a maternidade foi usada como forma de sensibilizar a opinião pública e expor a violência dos regimes autoritários. Enquanto grupos armados adotavam discursos ligados à força e ao confronto, os movimentos de familiares apostavam na emoção e na denúncia humanizada das vítimas.
No caso de Zuzu, a visibilidade foi ampliada por sua projeção internacional como estilista. Ela levou a denúncia para fora do país, buscou apoio de autoridades estrangeiras e deu entrevistas à imprensa internacional, rompendo o bloqueio imposto pela censura no Brasil.
Além disso, utilizou a própria moda como forma de protesto. Em suas coleções, passou a inserir símbolos que denunciavam a repressão, como anjos feridos, pássaros presos e referências à violência, transformando desfiles em manifestações políticas.
Mesmo sob ameaças, Zuzu manteve sua atuação. Segundo sua filha, a jornalista Hildegard Angel, a estilista enfrentou o regime com coragem em um período marcado pelo medo e pelo silêncio.

Durante décadas, a versão oficial apontava a morte como acidente. No entanto, em 2014, a Comissão Nacional da Verdade confirmou que Zuzu foi assassinada pelo Estado brasileiro. Posteriormente, a certidão de óbito foi retificada, reconhecendo a morte como violenta e causada por agentes do regime.
Legado
Décadas após sua morte, Zuzu Angel segue como símbolo de resistência. Sua trajetória mostra que a luta contra regimes autoritários pode ocorrer de diferentes formas — inclusive por meio da arte e da cultura.
Além do reconhecimento histórico, seu nome passou a integrar espaços públicos e iniciativas de memória, consolidando seu papel na defesa dos direitos humanos no Brasil.


