Se essa história fosse só sobre talento, bastidor e histórico profissional, a Vitória Strada já teria engatado um novo trabalho na Globo há tempos. Mas televisão — e principalmente a engrenagem da teledramaturgia — raramente funciona só na lógica do mérito. O caso dela escancara um tipo de ruído que a Globo ainda não resolveu completamente: o desalinhamento entre imagem pública, estratégia de casting e as leituras conservadoras da alta cúpula.
Desde a estreia em “Tempo de Amar”, Vitória construiu uma reputação praticamente irretocável nos bastidores. É o tipo de atriz que diretor gosta de escalar, que elenco gosta de contracenar e que entrega o que o autor escreve sem ruído, sem crise, sem vaidade excessiva. Isso, historicamente, sempre foi moeda forte dentro da Globo.
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Ainda assim, a carreira dela dentro da emissora foi marcada por um detalhe importante: circulação restrita entre autores. Trabalhou com nomes como Elizabeth Jhin e Alcides Nogueira (ambos hoje fora da ativa na casa) e mais recentemente com Daniel Ortiz, que tem uma linguagem muito específica dentro da faixa das sete. Ou seja: Vitória nunca virou “patrimônio coletivo” da dramaturgia, aquele tipo de atriz que atravessa núcleos, horários e autores com facilidade.
O segundo ponto — e talvez o mais sensível — é a forma como a vida pessoal dela entrou no radar corporativo. A exposição do relacionamento com Marcella Rica, à época, foi celebrada publicamente, mas nos bastidores gerou desconforto em setores mais conservadores da emissora. Não é uma política oficial, nem algo que alguém vá admitir em voz alta, mas ainda existe uma preocupação silenciosa com “aceitação de público”; especialmente em produtos de massa como as novelas.
E aqui entra uma contradição importante: a Globo que se comunica para fora é mais moderna do que a Globo que decide internamente. Mesmo com o fim do relacionamento e o atual namoro com Daniel Rocha, o “rótulo” já foi criado. E em televisão, rótulo demora a ser reconfigurado, principalmente quando não há um projeto forte que reintroduza o artista sob outra lente.
O contraste com Babu Santana só evidencia ainda mais essa lógica torta. Mesmo após um pós-reality turbulento no “BBB 26”, ele já aparece escalado em “Por Você”. Não necessariamente por “merecimento” ou “demérito”, mas porque se encaixa em um tipo de casting que a Globo precisa preencher rapidamente.
No fim, a ausência de Vitória Strada na fila de novelas parece menos sobre rejeição direta e mais sobre uma soma de fatores: falta de um autor que a banque, encaixe limitado dentro dos projetos em desenvolvimento e, sim, um ruído de imagem que nunca foi totalmente administrado internamente.
O problema é que, enquanto a emissora demora para resolver essa equação, ela deixa uma atriz pronta — e aprovada — fora do jogo. E em um momento em que a própria Globo busca renovar suas protagonistas e dialogar com novos públicos, isso não é só uma perda para a carreira da Vitória. É um erro estratégico.


