Enquanto as principais seleções do planeta já planejam seus próximos passos rumo à Copa do Mundo de 2030, um pequeno país espalhado pelo Oceano Pacífico trava uma disputa muito maior do que qualquer eliminatória. Com pouco mais de 100 mil habitantes e apontado como uma das nações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, Kiribati iniciou um projeto ambicioso para buscar uma vaga no próximo Mundial. A iniciativa surge em meio aos alertas sobre a elevação do nível do mar, fenômeno que ameaça tornar partes do arquipélago inabitáveis nas próximas décadas.
A ideia é liderada pela Federação de Futebol das Ilhas Kiribati (KIFF), que trabalha para inserir oficialmente o país nas competições internacionais e construir uma estrutura capaz de disputar as Eliminatórias da Oceania. Para o presidente da entidade, Eriati Reebo, o projeto ultrapassa os limites do esporte e se conecta diretamente à identidade nacional.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Ilhas Kiribati correm o risco de desaparecer do mapa por causa da elevação do nível do marReprodução/Secretaria de Turismo do governo de Kiribati Presidente da federação das Ilhas KiribatiReprodução
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“O futebol é a nossa paixão e, apesar de nossa pequena extensão territorial, sonhamos grande. A Copa do Mundo de 2030 pode ser a nossa última chance de celebrar o futebol como uma nação e nós queremos estar lá. Isso não é apenas sobre futebol, é sobre construir algo do zero. Um legado, uma história que o mundo sempre vai se lembrar”, afirmou.
O primeiro passo do plano é concluir o processo de filiação à Oceania Football Confederation, condição necessária para participar das competições oficiais do continente. Paralelamente, a federação pretende profissionalizar o futebol local e buscar apoio internacional para acelerar o desenvolvimento da modalidade. A estratégia inclui um convite público a profissionais renomados do esporte para colaborar com o projeto.
“Somos uma pequena e maravilhosa nação insular do Pacífico, muito afetada pelo aumento do nível do mar. Por conta disso, realizamos um convite aos maiores nomes do futebol mundial para que nos ajudem nesse processo. Solicitamos o apoio dos melhores diretores, treinadores e jogadores para que se juntem a nós para a realização deste grande sonho”, declarou Reebo.
A campanha ganhou respaldo também fora do universo esportivo. O United Nations Environment Programme acompanha a iniciativa e vê no futebol uma ferramenta capaz de ampliar a conscientização sobre os impactos climáticos enfrentados por países insulares. Segundo Mirey Atallah, chefe do Departamento de Adaptação e Resiliência da Divisão de Mudanças Climáticas da entidade, o alcance global do esporte pode ajudar a dar visibilidade a desafios que afetam diretamente populações vulneráveis.
“O PNUMA tem se engajado com campanhas e parceiros que reconhecem o papel poderoso que o esporte e as plataformas de comunicação podem desempenhar na conscientização e mobilização para a ação climática. Plataformas esportivas globais — incluindo o futebol — oferecem oportunidades importantes para ampliar a visibilidade dos riscos climáticos existenciais que atingem países vulneráveis como Kiribati, particularmente em relação à elevação do nível do mar, erosão costeira e degradação dos ecossistemas”, explicou.
O objetivo final é disputar uma vaga na Copa do Mundo de 2030, que terá jogos em Portugal, Espanha, Morrocos, Uruguai, Argentina e Paraguai. Para uma nação que convive diariamente com previsões sobre o avanço das águas, a classificação significaria muito mais do que uma conquista esportiva.
Kiribati possui características únicas no planeta. É o único país localizado simultaneamente nos hemisférios Norte, Sul, Oriental e Ocidental e também figura entre os primeiros lugares do mundo a celebrar a chegada do Ano Novo. Com o gilbertês e o inglês como idiomas oficiais, o arquipélago tem como ponto mais alto apenas 81 metros acima do nível do mar.
Entre desafios ambientais e sonhos esportivos, o país tenta construir uma história improvável. Se conseguirá chegar à Copa ainda é uma incógnita. Mas, para Kiribati, a caminhada rumo ao Mundial já se tornou uma forma de mostrar ao mundo que sua existência vai muito além das estatísticas sobre as mudanças climáticas.



