A história conta-se rapidamente. No domingo, o diretor-geral e a diretora de informação da BBC demitiram-se na sequência de críticas a um documentário emitido nas vésperas das presidenciais norte-americanas, que editava abusivamente o discurso de Donald Trump no dia da invasão do Capitólio, justapondo duas passagens que correspondem a momentos diferentes da intervenção. Na versão emitida, era feito um apelo direto à insurreição, com Trump a afirmar “vamos até ao Capitólio” e “eu estarei convosco e vamos lutar”.
Há duas coisas que podem ser ditas sem subterfúgios. Por um lado, o que a produtora independente que realizou o documentário para a BBC fez é péssimo jornalismo; por outro, Trump nunca reconheceu os resultados eleitorais e de facto estimulou os tumultos – o que aliás ficou demonstrado com o indulto presidencial a 1500 invasores do Capitólio.
O que nos deve levar a considerar outras hipóteses para explicar a golpada dos últimos dias, que levou à decapitação das chefias da BBC. No fundo, estamos a testemunhar uma sequência previsível e que tem sido seguida com disciplina pela direita radical. Começase por destruir a credibilidade das instituições de intermediação (os tribunais, as universidades e os órgãos de comunicação social). Promove-se a sua substituição por personalidades, líderes carismáticos ou influencers com alcance nas redes sociais, e por novas plataformas de conteúdos que não obedecem a critérios jornalísticos (um dos artífices da GB News, a versão britânica dos sites de direita radical que se multiplicam, está na génese desta campanha contra a BBC). Para tudo culminar na monetarização da alegada indignação (Trump reclama uma indemnização de mil milhões de dólares à BBC, à imagem do que fez com vários media norte-americanos).
O programa de reportagens da BBC cometeu um erro, a campanha transnacional em curso, atacando um dos baluartes da imprensa livre, é outra coisa: perigosa e sintomática dos tempos que vivemos. Não se trata de uma simples crítica a um órgão de comunicação, mas de uma estratégia global, concertada para substituir a busca da verdade pela propaganda. Se esta ofensiva à liberdade de imprensa e ao serviço público de mídia pode resultar até com a BBC, imaginem só o que se pode passar um pouco por todo o mundo. Aliás, já se está a passar.
(Transcrito do PÚBLICO)




