O mais recente capítulo da longa história de tentativas de golpe militar no Brasil se encerrou nesta semana. O ministro Alexandre de Moraes anunciou o fim do processo, seu trânsito em julgado e determinou que os réus comecem a cumprir pena. São quatro oficiais de alta patente, um capitão, ex-presidente da República, e Alexandre Ramagem, civil, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, que se aproveitou de um descuido das autoridades e fugiu para os Estados Unidos. Ele, aliás, inaugurou uma nova rota que é utilizada no sentido contrário pelos cubanos que fogem para o Brasil. A Guiana mantém relações estáveis com Cuba e também com os Estados Unidos.
Ramagem, que não avisou ninguém, nem notificou a Câmara dos Deputados de sua viagem, inaugurou esta rota com provável auxílio. A cidade de Bonfim, em Roraima, é praticamente ligada a Bethlem, no outro lado da fronteira. É um porto livre, uma espécie de Paraguai do norte. Os produtos eletrônicos são vendidos a preços muitos baixos, porque há isenção de impostos. Ali operam os intermediários que convidam passageiros para ir, de carro, até Georgetown, capital do país. É uma viagem, em estrada de terra, de seiscentos e cinquenta quilômetros, que não dura menos de dez horas. Há também ligação por via aérea. Em Georgetown, hoje a capital do petróleo na América do Sul, as ligações com os Estados Unidos são fáceis e tranquilas. Segundo a Polícia Federal o fugitivo brasileiro foi para Miami. Voo curto.
A eleição de Bolsonaro, pelo voto direto, acendeu uma possibilidade no horizonte dos radicais. Militares da velha guarda afirmaram, na época, que a ascensão dele significava 1964 por via eleitoral. Bolsonaro governou conforme o figurino. Elogiou a tortura, a censura, disse que os governos militares deveriam ter matado mais gente. E revelou sua face negacionista quando não reconheceu a letalidade da convid, chamada de gripezinha. Ele conclamou o golpe de Estado em todas as suas aparições populares. E desafiou o Supremo Tribunal Federal. Afirmou estar disposto a não cumpriras as leis.
Junto com os militares de alta patente, que foram para prisão nesta semana, montou o roteiro do golpe militar. Não conseguiram ganhar a eleição no voto e perderam na tentativa de golpe por deixar rastro por onde caminharam. Um ciclo se fechou. A atual geração não deverá ver mais uma tentativa de derrubada violenta do poder no Brasil. Mas, é bom se manter alerta. Ainda é cedo para comemorar.
André Gustavo Stumpf, jornalista ([email protected])




