A semana que começa com a contagem regressiva para o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete réus por tentativa de golpe foi precedida por mais um movimento patético do filho zero três do capitão, auto exilado nos Estados Unidos, de onde conspira contra o Brasil. Remeteu um ofício à Câmara dos Deputados no qual reivindica exercer remotamente o mandato, “denunciando” que o país vive “sob regime de exceção”. Uma peça composta sob medida para engordar os argumentos dos advogados do ex em tribunais internacionais.
Pessimista quanto à absolvição pela Primeira Turma do Supremo no julgamento que se inicia na terça-feira, dia 2, a defesa de Bolsonaro pretende reforçar a tese de que ele deveria ser julgado pelo pleno, pleito pouco provável de ser atendido visto o indeferimento recente. A alternativa seguinte é recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos, alegando ausência de dupla jurisdição e cerceamento da defesa. Mesmo no campo da insânia, bater na tecla do regime de exceção exercido por um juiz ditatorial é um argumento a mais.
Tenta ainda apoderar-se do termo soberania, que o presidente Lula e os seus têm usado (e abusado) com relativo sucesso diante das investidas dos Bolsonaros e a truculência de Donald Trump contra o Brasil. “A soberania da vontade popular não pode ser atropelada por medidas arbitrárias”, escreve. Desconsidera que o parlamentar tem de fazer jus à confiança depositada pelo eleitor, o que, garantidamente, não inclui trair os interesses do país e do estado que o elegeu.
Como desfaçatez é ilimitada, em um outro trecho Eduardo é tão ou mais infame do que o seu pai ao lidar com as consequências da Covid-19, que matou 700 mil brasileiros e era tratada como “gripezinha” ou “mimimi” pelo ex. Para defender sua atuação remota, o parlamentar afirma que a Câmara criou precedentes durante aquele período e que “as condições atuais são muito mais graves: o risco de um parlamentar brasileiro ser alvo de perseguição política hoje é incomparavelmente maior do que o risco de adoecer gravemente durante a pandemia”. Tal pai, tal filho.
Espera-se que o ofício dirigido ao presidente da Câmara Hugo Motta não tenha qualquer efeito para obter o que o parlamentar reivindica. Atendê-lo seria corroborar com a ação deletéria que o parlamentar tem feito contra o país. Mas o documento se presta a outros intentos.
Além de fermentar a argumentação jurídica em favor do pai e dele mesmo, na mira de perder o mandato, constrange o já enfraquecido Motta – “a Câmara dos Deputados não pode se tornar cúmplice de um regime ditatorial já sancionado internacionalmente por graves violações de direitos humanos”. É Motta quem arbitra se os projetos de anistia e de limitações ao STF serão ou não colocados em votação. O ofício serve ainda para dar gás aos mais fiéis.
Mobilizar fanáticos é parte essencial na estratégia de manter o delírio de que Bolsonaro é vítima da ditadura da toga, de perseguição, da opressão à liberdade de opinião, da injustiça. O problema de Eduardo e de todo o clã é que não há como apagar os diálogos, a troca de mensagens, a confissão de que tudo que o deputado faz nos Estados Unidos nada tem a ver com os brasileiros, nem mesmo com aqueles que depredaram os prédios dos Três Poderes em nome do mito e foram condenados. Nada tem a ver com os valores que arrotam. Nem com Brasil, nem com Deus, nem com a família. Só com a deles.
Mary Zaidan é jornalista




