*O artigo foi escrito pela médica Maria Fernanda Barca, doutora em endocrinologia e membro do grupo de Tireoide do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (USP), e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Nos últimos anos, o selênio passou a ser visto com frequência em redes sociais, nas prateleiras de suplementos e consultórios. Fala-se dele como um aliado da imunidade, da tireoide, da fertilidade e até da prevenção de doenças crônicas.
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Localizada na região do pescoço, a tireoide produz os hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que regulam o metabolismo, influenciam a fertilidade e participam do funcionamento de órgãos vitais, como coração e cérebro. Entre as suas alterações mais frequentes estão o hipotireoidismo (produção insuficiente de hormônios) e o hipertireoidismo (produção excessiva).
O risco de ter níveis baixos de selênio no organismo
Nos anos 1990, pesquisadores identificaram que o selênio integra enzimas fundamentais para a ativação dos hormônios tireoidianos. A partir daí, o mineral passou a ser investigado como possível aliado no manejo de doenças da tireoide — especialmente as de origem autoimune.
Níveis baixos de selênio, de acordo com estudos observacionais, podem estar associados a maiores riscos de doenças benignas da tireoide. Além disso, pesquisas epidemiológicas internacionais relacionam a deficiência do mineral a um risco aumentado de tireoidite autoimune (quando o sistema imunológico ataca a tireoide), como a tireoidite de Hashimoto (inflamação crônica que costuma levar ao hipotireoidismo) e a doença de Graves (autoimune associada ao hipertireoidismo).
Em pacientes com quadros graves, estudos apontam que a suplementação de selênio, quando utilizada como complemento ao tratamento convencional, pode estar associada a uma remissão mais rápida dos sintomas e melhora da qualidade de vida.
É justamente nesse ponto que a discussão precisa ser conduzida com mais cuidado e rigor científico. O fato de o selênio ser um micronutriente essencial não autoriza sua prescrição indiscriminada. Parte da difusão sobre as qualidades do mineral extrapola o que os dados disponíveis permitem afirmar com segurança.
Fama exagerada e mitos
Um dos mitos mais recorrentes é de que o selênio fortalece a imunidade e previne doenças de forma ampla. Na prática, ele é necessário para o funcionamento adequado do sistema imunológico, mas não há evidência de que suplementar acima das necessidades fisiológicas traga benefícios adicionais para pessoas sem deficiência.
Outro argumento frequentemente difundido é o de que o selênio teria efeito protetor contra câncer e doenças cardiovasculares. Ensaios clínicos de grande porte não confirmaram essa hipótese de forma consistente. A literatura científica indica que a suplementação indiscriminada não reduz o risco dessas doenças e, em alguns contextos, pode estar associada a efeitos adversos.
Há, no entanto, consensos bem estabelecidos. O selênio é um micronutriente essencial, mas o organismo necessita dele em pequenas quantidades. É importante também chamar a atenção para o fato de que a margem entre a dose adequada e a dose potencialmente tóxica é estreita. Em grande parte da população, especialmente em países como o Brasil, a alimentação habitual já fornece selênio suficiente, sem necessidade de suplementação.
Uso por gestantes e situações específicas
Quando o foco se volta para gestantes, a interpretação das evidências exige ainda mais cautela. Consensos internacionais não recomendam rotineiramente a suplementação de selênio para grávidas com tireoidite de Hashimoto (doença autoimune da tireoide), citando inconsistência dos resultados e possíveis riscos associados a doses elevadas.
Ao mesmo tempo, estudos e revisões publicados entre 2024 e 2025 sugerem que níveis baixos de selênio no organismo materno estão associados a desfechos adversos da gestação, incluindo maior atividade autoimune e risco aumentado de tireoidite pós-parto (inflamação da tireoide após o parto). Esses estudos indicam, ainda, que a resposta à suplementação não é homogênea. Os efeitos variam conforme o nível basal de selênio, a atividade da doença e o acompanhamento clínico.
Uma revisão que analisou 21 estudos envolvendo 1.610 pacientes com tireoidite de Hashimoto concluiu que a reposição adequada e controlada esteve associada à redução de autoanticorpos, diminuição dos níveis de TSH e melhora modesta da qualidade de vida.
É necessário sublinhar que o selênio não trata doenças da tireoide de forma isolada. Quando há deficiência, sua suplementação pode atuar como apoio no controle da inflamação e da autoimunidade, mas sempre em conjunto com o tratamento medicamentoso indicado.
Quando o excesso vira problema
O selênio é obtido principalmente pela alimentação, por meio da ingestão de carnes, frutos do mar, ovos e grãos. A dose diária recomendada para adultos é de 55 microgramas por dia, podendo chegar a 60 microgramas para gestantes e 70 microgramas para lactantes. O limite máximo seguro é de 400 microgramas por dia. A castanha-do-pará concentra quantidades elevadas do mineral: uma a duas unidades ao dia podem ser suficientes para atingir a recomendação diária.
Os potenciais benefícios associados ao selênio não anulam os riscos do uso indiscriminado. A literatura científica mostra que a proximidade entre dose adequada e dose tóxica exige atenção. A ingestão elevada pode provocar queda de cabelo, fragilidade das unhas, fadiga, náusea, diarreia e erupções cutâneas. Em quadros mais graves, há registros de alterações neurológicas e comprometimento renal ou cardíaco.
Diante desse cenário, a suplementação só deve ser considerada após avaliação clínica e laboratorial, especialmente em pessoas com doenças autoimunes da tireoide, infertilidade ou outras condições específicas.
As evidências disponíveis sugerem que o selênio pode ocupar um lugar complementar no manejo de algumas doenças da tireoide, sobretudo nos distúrbios autoimunes. No entanto, o conjunto de evidências disponível informa que o uso do selênio deve continuar restrito a situações específicas, com dose e indicação bem definidas. O alerta permanece: mais selênio não significa mais saúde.![]()




